Trópicos Distópicos
Trópicos Distópicos
Carlos Alberto Jr.
Notas de um presente distópico escritas por Carlos Alberto Jr.
3 - Máscara
Cenas de um presente distópico. Texto: Altair Lira. Idealização e realização: Carlos Alberto Jr. Contato: [email protected]
May 11, 2020
6 min
2 - Perdigotos
Notas de um presente distópico Perdigotos Perdigoto: filhote de perdiz. gotícula de saliva que alguém lança ao falar. origem. latim. Perdicottus Espirro: expulsão reflexa, brusca e sonora do ar pelo nariz e pela boca, provocada por irritação da mucosa nasal; esternutacão; jato, esguicho, borrifo. Tosse: expiração brusca e barulhenta, involuntária ou voluntário, de ar contido nos pulmões. A tosse elimina cerca de 6 miligramas de gotículas de saliva, e quase um litro e meio de ar a uma velocidade média de 80 km/h. O centro cerebral que comanda a tosse é próximo ao do vômito, motivo pelo qual não raramente vomitamos durante um acesso de tosse. Esse episódio é inspirado numa fotografia do repórter-fotográfico Joédson Alves, da agência de notícias espanhola EFE. Acidentalmente, Joédson capturou a imagem de um punhado de perdigotos tentando escapar de uma boca. O desespero dos perdigotos era evidente. Eles saltavam para o vazio, tentando se distanciar o máximo possível do hospedeiro. Foi uma ação ousada, pois um erro de cálculo poderia significar o fim dos perdigotos, cujos cadáveres ficariam estatelados no asfalto quente de Brasília, lembrando música e texto de autores consagrados: ficaria lá o corpo estendido no chão observado pelo zé ninguém. A presença de uma claque a poucos metros da fossa presidencial, no entanto, impediu o salto no vazio e garantiu aos perdigotos a posse de novos hospedeiros. O flagrante da fuga perdigota ficou eternizado naquela imagem, com "seus mesmos tristes velhos fatos que num álbum de retratos" teimamos "em colecionar". A louca escapada dos perdigotos talvez mereça entrar na categoria do "instante decisivo", conceito criado pelo fotógrafo francês Henri Cartier Bresson. O instante decisivo acontece em uma fotografia quando elementos visuais e emocionais se unem em perfeita harmonia e expressam a essência da situação presenciada pelo fotógrafo. A discussão é grande no mundo da fotografia. Fica a dúvida se o conceito se aplica apenas quando o fotógrafo aguarda o instante decisivo para registrar a imagem ou se também vale para algo que se percebe apenas depois que a foto nos é revelada. Numa entrevista que me deu recentemente sobre a foto, Joédson informa que não teve a intenção de fotografar perdigotos em fuga. Só percebeu quando transferiu os dados do cartão de memória da câmera para o computador e foi editar o material. Mas talvez isso agora não faça diferença. Como não existe um registro fotográfico ou microscópico do instante decisivo em que integrantes da família COVID-19 saltaram de algum animal para o ser humano, temos agora, mesmo que de maneira involuntária, o registro de um instante decisivo distópico. O momento exato em que perdigotos que carregavam o coronavírus fogem horrorizados de um hospedeiro. A imagem registra o início do salto, mas não mostra onde e nem em quem os perdigotos pousaram. Mas isso também pouco importa, pois, este é apenas o relato de um presente distópico que permite tomar emprestadas e adaptar as linhas finais do romance A revolução dos bichos, de George Orwell: as criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco. No nosso presente distópico, já não é possível distinguir um perdigoto de outro. Talvez eu volte. Um dia eu volto. Contato: [email protected]
May 3, 2020
4 min
1 - Notas de um presente distópico
Utopia: sistema ideal em que se concebe uma sociedade perfeita e justa. Distopia: lugar ou estado imaginário em que se vive em condições de extrema opressão, desespero ou privação; antiutopia. Ritmo circadiano: síndrome de mudança rápida de fuso horário ou descompensação; desequilíbrio produzido entre o relógio interno de uma pessoa, que marca os períodos de sono e vigília, e o novo horário que se estabelece ao viajar longas distâncias. Disritmia: qualquer alteração de ritmo, cardíaco ou circadiano, ou de qualquer outro órgão ou sistema capaz de gerar fenômenos elétricos que possam ser registrados e avaliados por uma tecnologia específica. Música. Martinho da Vila. "Futuro distópico": ficção científica. Passado distópico: Gênesis: "crescei e multiplicai-vos; enchei e dominai a terra." Presente distópico: Data: 30 de abril de 2020. Fato: Vírus COVID-19 é transmitido de um animal para o ser humano. Ambiente ideal para se reproduzir. Local: distópico e não revelado. Para mim, é o presente. Mas ao terminar a frase, estou no futuro. Não sei "se" e nem "quando" você vai ouvir o que digo/disse. Meio de transporte: fissura no tempo Formato: algoritmos Data distópica de partida: 30 abril de 2020 Duração da viagem: 26 anos. Data distópica de chegada: 2045 Prazo de validade: 76 anos e 3 meses Disritmia. Talvez eu volte. Um dia eu volto. Contato: [email protected]
May 3, 2020
3 min