Trip FM
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Há 30 anos, Paulo Lima faz entrevistas com as personalidades mais interessantes do país
Eriberto Leão: Quero ser um instrumento de evolução
Estudioso da contracultura, o ator deixa a TV Globo, toma as rédeas da sua história e fala sobre Jim Morrison, corpo, Deus e extraterrestres Mesmo sendo um ator de mão cheia, é difícil manter o papo com Eriberto Leão preso ao âmbito das artes cênicas. Um estudioso da contracultura e, em suas palavras, perseguidor dos sentidos da vida, Eriberto teve a sua existência alterada quando conheceu mais a fundo a banda The Doors e passou a ler os livros tão caros ao vocalista do grupo, Jim Morrison. Onipresente em todas as formas da atuação nos últimos meses – fez a novela “Além da Ilusão”, a série “Ilha de Ferro” e estreou a peça “O Astronauta”, além de estar nos cinemas com dois longas-metragens – ele agora se prepara para entrar em uma nova fase: “Estou terminando um relacionamento de 19 anos com a Globo, chegou a hora de ser protagonista da minha própria vida.” Em um papo profundo com o Trip FM, o artista falou de envelhecimento, Deus, vida fora da terra, corpo e muito mais. Confira no play aqui em cima, no Spotify ou leia um trecho abaixo. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/09/6312557267618/eriberto-leao-ator-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Andrea Nestrea; LEGEND=Eriberto Leão; ALT_TEXT=Eriberto Leão] Trip. Uma ferramenta de autoconhecimento potente é o corpo, algo que muita gente passa a vida sem explorar. Como alguém que depende disso para o trabalho, qual é a sua relação com o físico? Eriberto Leão. As artes cênicas nos trazem uma necessidade de conhecimento do corpo. Você não pode estar em cena sem se comportar fisicamente como uma personagem. É preciso primeiro se conhecer, zerar a sua expressão corporal, para então poder dar vida a uma história. Aí você vê como a personalidade influencia o corpo e como o corpo influencia a personalidade. Imaginem então se todos nós nos compreendêssemos em nosso templo?  Eu sei que você já fez alguns sacrifícios em nome da atuação, como enfrentar touro em arena sem dublê. Até onde você já foi em nome da arte? Os melhores atores da minha geração consideram esse trabalho sagrado. Eles sabem de onde vem a nossa arte. Mas o sacrifício também vai amadurecendo durante o tempo. Minha primeira peça eu precisava bater o joelho forte no chão. Poderia ter feito de forma cênica, mas não fiz e hoje tenho que ficar de olho nele o tempo inteiro. Quando te prejudica de alguma maneira, já acho que não é necessário, mas se não vai prejudicar e fazer você estar dentro do personagem, acho válido. Às vezes preciso fazer de verdade para fazer bem, mas talvez hoje aos 50 anos, por exemplo, eu não enfrentaria o touro que enfrentei em "Paraíso". Você acabou de passar por uma idade, os 49 anos, muito importante para a teoria dos setênios. Sentiu alguma mudança? Se a gente pudesse optar, escolheríamos que a mente continuasse o amadurecimento enquanto o corpo permanece jovem. Mas isso não é possível e eu, realmente, não voltaria atrás, porque a maturidade da experiência não tem preço. Eu me sinto hoje tomando as rédeas da minha vida. Termino em um mês um relacionamento de 19 anos com a Globo. Chegou a hora de ser protagonista da minha própria história. Estou me sentindo muito bem principalmente porque tenho muita gratidão pela minha trajetória. Eu gosto muito de uma frase que diz que nós não estamos em evolução, nós somos a evolução. Espero que eu possa ser um instrumento – através da minha arte – dessa evolução que é inexorável ao universo. O Big Bang explodiu e está expandindo, nós temos que expandir juntos; nós somos um com ele.
Sep 2, 2022
Maria Clara Gueiros: O humor me salvou da tristeza
A atriz e humorista dona do bordão “Vem cá, te conheço?” fala sobre etarismo, maternidade e perdas Foi com o bordão “Vem cá, te conheço?” que Maria Clara Gueiros ficou popular no mundo do humor. Atriz do extinto “Zorra Total” e de novelas como “Nos Tempos do Imperador”, ela agora se lança para produções de fora da TV Globo após um casamento de 17 anos com a emissora. Já inclusive gravou para a HBO Max a primeira temporada de “No Mundo da Luna”, inspirada nos livros adolescentes de sucesso. Com uma estreia tardia na televisão, aos 39 anos, Maria Clara ralou muito no início da carreira. Além de se formar e defender um mestrado em psicologia, a artista fez muita peça infantil e já até distribuiu filipetas vestida de garça para promover um espetáculo do qual fazia parte. Foi bailarina profissional também, mas largou a profissão dois dias depois do conselho que ouviu do amigo de palco, Eri Johnson: “Você dança mal pra caramba, investe na atuação”. Apesar de não acreditar na visão de que todo humorista carrega um lado depressivo, ela assume que cultiva certa melancolia desde criança: “Acho a melancolia importante porque ela se traduz em empatia, em se colocar no lugar do outro. Quando a pessoa é muito animada, ela não abre a guarda para entender o próximo”. Em cartaz no Teatro Nair Bello com a peça “O Falcão Vingador” por mais este fim de semana apenas, a atriz conversou com o Trip FM sobre etarismo, maternidade, sobre a perda da atriz Cláudia Jimenez, entre outros assuntos.  Trip. Você acredita que todo humorista tem um lado depressivo, como mostram alguns estudos, ou acha isso uma lenda urbana? Maria Clara Gueiros. A melancolia do humor eu acho que é lenda urbana, mas por acaso faz sentido para mim. Sempre fui tímida, desde a infância, então ser comediante surpreendeu muita gente que cresceu comigo. Mas eu acho a melancolia importante porque ela se traduz em empatia, em se colocar no lugar do outro. Quando a pessoa é muito animada, ela não abre a guarda para entender o próximo. O humor me salvou da tristeza da existência. Eu lido com a melancolia através do humor e isso é salvador. Você guarda alguma mágoa da Globo? Mágoa nenhuma. Nosso mercado audiovisual está sujeito as leis da procura e demanda e ele mudou muito nos últimos anos, com os streamings. O jeito que a TV Globo trabalhou durante muitos anos ficou inviável. É claro que eu fiquei 17 anos com essa segurança de ter um salário fixo e plano de saúde e a princípio quando eu fui desligada me deu um certo pânico, mas graças a Deus, um mês depois eu estava fazendo contratos. Estes artistas todos estão sendo postos no mercado e sendo chamados para tudo. Antes a gente só fazia Globo. Posso dizer que estou muito feliz. O fim dos projetos de humor na TV aberta também coincidiu com o mundo ter virado de cabeça para baixo. Novela é o carro chefe e não daria para abrir mão. Humor ficou fora da prioridade. Mas não porque as pessoas não queiram ver; o humor é salvador. Eu tenho certeza que isso vai voltar. Já sofreu com etarismo? A gente sofre com etarismo, sim. O mundo é dos jovens, da novidade, do descartável. A pessoa mais velha traz estampado na cara coisas que são diferentes disso. As pessoas olham para quem está além dos cinquenta como não próprio para os dias de hoje. Isso é uma balela: eu me considero muito atenta. Obviamente não posso fazer o papel de mocinha, coisa que também nunca fiz, mas o nosso ouvido ligado para as coisas que estão acontecendo é muito mais importante que as rugas que temos.
Aug 26, 2022
Álvaro Machado Dias: A espécie humana será extinta?
Neurocientista e futurista dá sua visão sobre a evolução da espécie e prevê duas formas para o nosso fim Talvez o fim do ser humano venha permeado por dor após uma série de eventos catastróficos, sejam eles causados pelo efeito estufa ou por guerras bioquímicas que estejam por vir. Por outro lado, o nosso medo de morrer pode seguir trazendo avanços na ciência, com tanta protética, tantos caminhos de substituição de elementos biológicos por elementos sintéticos que chegaríamos ao ponto de criar uma subespécie que em pouco se assemelharia a forma como somos hoje. Dessa maneira, o fim da humanidade seria sem gritos. Frear a velhice, por mais paradoxal que pareça, poderia então gerar o fim da espécie humana. É assim que pensa sobre a finitude o futurista Álvaro Machado Dias, um pós-doutorado em neurociências que tem ganhado espaço na mídia com a forma clara e provocativa que pensa sobre a tecnologia. Filho de professores, Álvaro se formou em psicologia e durante muito tempo viveu em ambiente laboratorial, o que foi um peso para a sua natureza extrovertida. Acabou mudando de vida e iniciou um diálogo mais aberto com o mundo, pensando sobre assuntos que às vezes parecem saídos de um filme de ficção científica. A guinada ele atribui a uma depressão: “Tem sofrimentos na vida que são muito bons. A gente precisa passar por eles porque são como molas que vão nos levar para outro lugar. Não vamos esquecer que se a depressão não crônica fosse desadaptativa, teria sido eliminada pela seleção natural. Tem alguma coisa de base que faz ela ser prevalente na espécie”, diz. Em um bate papo com o Trip FM, o cientista ainda falou dos rumos das redes sociais, capitalismo, e drogas. Confira no play aqui em cima, no Spotify ou leia um trecho a seguir. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/08/62f67eba4708d/alvaro-machado-dias-neurologista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Divulgação; LEGEND=Alvaro Machado Dias; ALT_TEXT=Alvaro Machado Dias] Trip. Você tem um estudo recente sobre velhice que vê uma felicidade entre os mais velhos, é isso? Álvaro Machado Dias. Alguns cientistas vêm colocando a velhice como uma espécie de doença, que seria essa alteração de dentro para fora que nos levaria a um estado de declínio físico indesejável. Meu entendimento é de que isto está errado. É uma visão míope que assume uma posição reducionista de que o envelhecimento é meramente a redução do escopo existencial, quando estudos mostram que a felicidade cresce em pessoas mais velhas. A minha tese é que a capacidade de metacognição, a habilidade de pensar sobre nós mesmo, melhora nas pessoas mais velhas. A gente ganha coisas na velhice que não se reduzem ao chavão da sabedoria. Isso não é conhecimento acumulado é uma habilidade que é desenvolvida. Como você vê o estudo de práticas ancestrais, como a ayahuasca? A gente está se aproximando dessas culturas antigas? Como instrumento de espiritualidade, eu seria contra o uso da ayahuasca na psiquiatria. O caráter espiritual cria um tipo de especificidade irreprodutível. Mas a ayahuasca também traz propriedades químicas ligas a sistemas neurotransmissores muito específicos. Ciência de verdade é pegar uma área em que tudo o que vem de novo reproduz o que já existe e propor algo diferente. A quetamina, esse anestésico usado como droga de balada, por exemplo, surge neste século como um dos remédios mais importantes contra a depressão. As drogas têm seus efeitos neuroquímicos independentes de qualquer ritual e por isso elas podem ser transformadas em nova terapêuticas para uma melhora holística do paciente. Como será o futuro das redes sociais? O modelo do vídeo curto imposto pelo TikTok se tornou hegemônico. Qual é a diferença com o Instagram? Do ponto de vista algorítmico, o Instagram parte da comunidade. Já no TikTok á ideia principal é a da exposição geral. É como no capitalismo chinês: o pequeno grupo não existe e todo mundo é exposto a tudo e vigiado o tempo inteiro. É o fortalecimento da lógica de que o mundo é uma grande planície chinesa e todo mundo é exposto a todos os conteúdos e mapeado em todos os seus comportamentos.
Aug 12, 2022
O que a morte nos ensina sobre a vida?
Cientistas, religiosos, jornalistas e artistas contam como eles encaram um assunto ainda tão cercado de tabus Lidar com a morte e a fragilidade da vida faz parte da experiência de todos nós, mas esse ainda é um assunto delicado e cercado de tabus. Em uma semana em que perdemos personalidades como o humorista Jô Soares e o atleta e empresário João Paulo Diniz, o Trip FM reúne depoimentos de cientistas, religiosos, jornalistas e artistas contando como eles encaram a finitude. Wagner Moura, Marcos Mion, Alexandre Caldini e Júlia Rabello são alguns dos nomes que dividiram com a gente sua experiência com a morte no programa ao longo dos últimos anos. Confira alguns dos pensamentos abaixo eu escute o programa completo no Spotify.  Alexandre Caldini, autor do livro "A Morte na Visão do Espiritismo" A gente não sabe lidar com a morte porque ela sumiu. Antigamente a funerária ficava no centro da cidade, com os caixões expostos na calçada, e as pessoas eram veladas dentro de casa. Isso acabou, a morte foi terceirizada. É como uma prova de matemática: se você não estudou, vai chegar com medo. Por isso é preciso estar preparado Júlia Rabello, atriz Se você conversa com a sua morte, se pensa que a finitude existe, começa a dar significado para o agora. É importante olhar para o tempo. Senão a gente fica anestesiado, entra numa rede social e quando viu passou uma hora. Lembrar que existe morte faz com que façamos boas escolhas no período que temos, e que a gente nunca sabe qual é Wagner Moura, ator A vida é estar em profunda conexão consigo mesmo para que a partir daí você possa se conectar com os outros de maneira honesta. São essas conexões são que dão sentido à vida. Hoje, nesse momento de tantas diferenças, eu sinto falta de estar mais aberto a essas conexões Marcos Mion, apresentador Chegar perto da morte e voltar dá um certo desespero, porque a sensação é nula: não traz dor, não traz nada, simplesmente é. Num acidente, não estar sentindo nada acaba sendo relaxante, mas eu não quis entregar os pontos, não
Aug 5, 2022
Barbara Gancia: A verdade está insuportável
Sem desviar de qualquer polêmica, a jornalista fala sobre a elite brasileira, maconha e o livro que relata seus 30 anos de alcoolismo Com uma carreira extensa como jornalista – foram 36 anos no jornal Folha de S. Paulo, sem contar o trabalho em outras publicações importantes –, Barbara Gancia talvez tenha dado uma de suas maiores contribuições para a sociedade com a lançamento em 2018 do livro “A Saideira”, uma descrição sincera de sua relação de 30 anos com o álcool e como conseguiu se livrar da dependência. “Quando eu parei de beber, comecei a viver uma vida tão prazerosa e frutífera que tudo começou a acontecer no trabalho, na minha vida amorosa e na relação com os amigos. As pessoas não param de beber porque acreditam que vai ser uma angústia, mas eu continuo dando risada pra caramba”, conta. Uma espécie de tanque desgovernado com as palavras, essa escritora fez história também como apresentadora do programa “Saia Justa”, da GNT. Mas hoje, aos 64 anos, ela se diz aposentada, ao menos até que a verdade volte a ter a sua importância: “A verdade está insuportável. A gente tem muito conforto, muito tudo, e os caras estão sem emprego. Tem muita gente com muito dinheiro, muita gente com pouco dinheiro e as coisas não estão mais se resolvendo. Virou mais conveniente ter a sua própria verdade”.  Em um bate papo com o Trip FM, Barbara não desviou de uma polêmica ao comentar assuntos como maconha e os rumos da elite no país. “É preciso uma disposição de alma e humildade para conhecer o Brasil. Eu tenho tanto amigo que dá aula de política para empregado porque acha que é burro. Se fosse burro, não vivia com mil reais por mês. Eu quero ver se eles conseguem viver com tão pouco”. Leia um trecho abaixo ou confira o programa completo no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/07/62e3e97b01c98/barbara-gancia-jornalista-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Eduardo Knapp ; LEGEND=Barbara Gancia; ALT_TEXT=Barbara Gancia] Trip. Da sua observação como jornalista e tendo sofrido com dependência de álcool, acha que há solução para o problema das drogas no Brasil? Barbara Gancia. Eu sou especialista apenas na minha triste história. Tive uma dependência cruzada, mas somente porque a cocaína ajudava a baixar a minha bebedeira. A minha droga de escolha sempre foi o álcool. Gosto de maconha até hoje, em pequeníssimas doses. Mas acho que é uma droga que também precisa ser controlada, ao contrário do que muitas pessoas acham. É muito mais fácil causar um acidente de carro se você está sob o efeito de maconha, além de ser um gatilho muito grande para esquizofrenia. Mas é claro que não dá pra entender porque a maconha medicinal não foi liberada até hoje e como a gente ainda cultiva essa fábrica de criminosos em função dessa merda aí. A gente tinha que resolver isso de uma forma um pouco mais inteligente. E em relação especificamente à Cracolândia? Eu acho que não é aceitável a gente deixar um bando de gente se matando em praça pública: tem pessoas ali se prostituindo, grávidas, se degradando, roubando. Não é aceitável que uma sociedade deixe isso acontecer. Se você tira o cara daquele meio e cuida, ele vai sair da fissura e pode se recuperar. Ele é absolutamente tratável e de uma forma ambulatorial. É uma questão médica, não tem nada a ver com ideologia. É claro que não pode chegar, dar porrada e levar para cadeia. É outra questão, é preciso ter um sistema. Não é possível que a cidade de São Paulo não saiba lidar com isso e que quem cuide da região seja a polícia. Quem precisa tomar conta é a Unifesp, a Secretaria Municipal de Saúde. Mas é preciso ter coragem. E você acha que tem como educar a elite brasileira? Eles nem pegam ônibus. Mas quando vão para Holanda, pegam e se sentem o máximo. Aqui, acham que pobre é bandido, que não se esforçou. Todo mundo passando fome e você achando que é vagabundo. Eles não são maus de caráter, são apenas burros pra caramba. São tão alienados do que acontece que vão te falar com toda a propriedade que o Paulo Guedes é um cara legal. O Paulo Guedes não tem ideia do que é o Brasil. É preciso uma disposição de alma e humildade para conhecer o Brasil. Eu tenho tanto amigo que dá aula de política para empregado porque acha que é burro. Se fosse burro não vivia com mil reais por mês. Eu quero ver se eles conseguem viver com tão pouco.
Jul 29, 2022
Paolla Oliveira: Sou muito mais do que imaginam
A atriz destrói rótulos, não tem medo de se posicionar e chega à nova novela das sete, “Cara e Coragem”, mais empoderada do que nunca “Eu venho tentando abrir gavetas que ninguém sabe sobre mim. Primeiro eu era só a bonitinha, depois só a mocinha da novela, depois do Carnaval e um monte de outras coisas em que foram me enquadrando. A gente é muito além do que as pessoas imaginam”, diz Paolla Oliveira. Após ser definida e enquadrada tantas vezes, a atriz quer transcender os lugares em que o público e a crítica a colocaram por tanto tempo. Emplacando um trabalho de sucesso atrás do outro, a atriz chega à “Cara e Coragem”, novela das sete em que dá vida à personagem Pat, mais empoderada do que nunca. Sobre a relação com Diogo Nogueira, ela conta: “É a primeira vez que eu me exponho assim. Acredito que não tem a ver com o casal, mas com amadurecimento. Acabei de fazer 40 anos e se você não cria um pouco de espaço para se mover com conforto na vida e para saber que tem coisas que quer mostrar, vai passar o tempo todo espremida pelo que as pessoas acham que você deve fazer”. Outro lado que Paolla tem feito questão de mostrar é o seu posicionamento político. “Estamos em um momento em que ficar calada está errado. Esse governo tem posturas que ultrapassam o plano da política: a falta de respeito, a falta de humanidade, de consideração. São coisas que dizem respeito ao ser humano. É um caos instalado. Não é escolher um ou outro. A gente vai escolher o que não tiver ele”, diz. Foi com esse espírito firme que Paolla Oliveira bateu um papo com o Trip FM. Durante o programa a atriz falou ainda sobre corpo, envelhecimento e a pressão por ser mãe. Leia um trecho abaixo ou confira o programa na íntegra no play aqui em cima, no Spotify ou no Deezer. Trip. Você tem compartilhado a sua relação com o Diogo Nogueira de uma forma muito legal, mas eu sei que deve existir um lado ruim dessa exposição. Houve um planejamento antes de vocês deixarem as pessoas participarem desse casal? Paolla Oliveira. É a primeira vez que eu me exponho assim. E, pelo o que eu conheço do Diogo, a primeira vez dele também. Eu acredito que não tem a ver com o casal, mas com amadurecimento. Eu acabei de fazer 40 anos; se você não cria um pouco de espaço para se mover com conforto na vida e saber que tem coisas que quer mostrar, vai passar o tempo todo espremida pelo que as pessoas acham que você deve fazer. O romance eu sempre guardei muito bem, achava que as pessoas podiam vuduzar, que era um lugar muito vulnerável. Mas aí me deparei com o Diogo Nogueira: como eu escondo ele? A vida pública tem um bônus e um ônus. A gente pensou em mostrar até onde achamos bacana. Tem algo que aprendi muito na pandemia: a gente precisa demonstrar afeto em momentos tão ásperos. Mas ainda acho que a discrição é uma arma muito importante na nossa profissão. Na sociedade brasileira há uma ignorância de achar o corpo uma ferramenta estética apenas. No debate feminista existe um debate sobre o poder da sedução e da beleza do corpo. Eu queria que você falasse sobre isso, sobre como é ser e ter esse corpo como uma ferramenta do seu projeto de vida. As pessoas me perguntavam sobre ser sensual, sobre cenas de nudez, se isso não iria marcar o meu trabalho. Era tudo sempre em cima de um lado tão ruim que nunca tive tempo de respirar aliviada para falar: 'Caramba, qual é o problema de ser sensual e de usar a nossa sensualidade de várias maneiras?' A sensualidade está na gente, o ser humano é assim. A gente seduz em uma conversa, seduz os nossos amigos. As pessoas enxergam isso de uma maneira muito simples e eu gosto de olhar com abrangência. A Anitta, por exemplo, tem falado disso de um lugar muito mais alto, que é assim: Façam o que vocês quiserem, a potência está em como vocês querem mostrar a sua sexualidade. Com pouca roupa, com muita roupa, com celulite, sem celulite. Eu costumo ver o meu corpo como um elemento efetivo para o meu trabalho. Eu também já fui adolescente e tive uma cabeça um pouco mais suscetível às duvidas, mas hoje em dia não voltaria para lá. Se conhecer e ser mais segura de quem você é pode ser muito bom. Recentemente você se abriu sobre uma questão importante que é o congelamento dos óvulos, suavizando essa pressão muito forte sofrida pelas mulheres de que é preciso ter filhos até uma certa altura da vida. É uma pena que o congelamento de óvulos não seja mais acessível: é uma libertação muito grande. Existem pressões de todos os lados e obviamente a gente precisa se posicionar e não aceitar essas pressões. Mas a pressão dos filhos tem tempo determinado e isso não tem muito a ver com os outros, mas sim com cada uma de nós. Quando eu falei disso, que é tão pessoal, falei que gostaria que fosse uma escolha e não uma impossibilidade. Seria muito legal se mais mulheres pudessem passar por isso, mas enquanto isso não acontece que possam valer os nossos desejos, que filho de maneira nenhuma seja uma pressão.
Jul 14, 2022
Benito di Paula: Música é minha alma, minha fé
Um dos grandes bambas do samba comemora 80 anos de carreira e relembra histórias do passado, fala de grana, família e a relação com a mídia Um dos grandes bambas do samba, Benito di Paula foi uma espécie de Zeca Pagodinho dos anos 1970 e 1980. Compôs centenas de músicas que se transformaram em sucessos nacionais e internacionais na sua voz e na de outras lendas como Roberto Carlos, Maria Bethânia, o guitarrista Charlie Byrd, Alcione e Orquestra de Paul Mauriat. Seu programa "Brasil Som 75", na TV Tupi, alcançou audiências monumentais. Benito sempre se apresentou com piano de cauda, e sua indumentária incluía smoking, casaca, bigodão, pulseiras, colares e anéis (continua o mesmo). Muitos o imitaram, mas era difícil ser original como ele. Foi cultuado, criticado, exorcizado e sofreu censura braba porque algumas de suas músicas incomodavam o regime militar. Foi rotulado de brega e cafona por críticos azedos devido ao sucesso da imortal “Charlie Brown”, em que cantava as maravilhas do Brasil. Aos 80 anos, Benito comemora a carreira com uma série de projetos especiais ao lado do filho Rodrigo Vellozo. Ao Trip FM, ele contou que perdeu 50 milhões de reais, avaliou o seu legado, falou dos tempos em que morou em uma favela do Rio de Janeiro e de quando chegou a fazer quatro shows por noite, entre outras histórias. Leia um trecho abaixo ou ouça o programa completo no play aqui em cima ou no Spotify e Deezer. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/07/62c8550b317e1/benito-di-paula-cantor-campositor-musico-tripfm-mh.jpg; CREDITS=Murilo Alvesso / Divulgação; LEGEND=Benito Di Paula e Rodrigo Vellozo ; ALT_TEXT=Benito Di Paula e Rodrigo Vellozo ] Trip. Você foi um dos maiores vendedores de discos do Brasil. Qual foi a época em que você mais fez dinheiro? Benito di Paula. O dinheiro é o que menos importa. O que importou foi sempre a música. Benito, prega esse botão? Não sei. Benito, frita esse ovo? Não sei. Agora, música é a minha vida, a minha alma, meu espírito e minha fé. Mas eu ganhei muito dinheiro. Minha casa no Morumbi tinha 100 metros quadrados só de sala. Da noite pro dia eu perdi 50 milhões de reais não sei como. Perdi tudo, menos o meu amor pela minha família e, agora, pela minha neta. Vejo hoje que tenho tudo e antes não havia nada. Se alguém me roubou, não levou nada. Se levou, levou azar pra cacete porque roubar cigano da uma zebra danada. Outro dia você brincou que "era um cara feio que fazia umas musiquinhas mais ou menos". Deixando a piada de lado, qual você acha que foi o seu legado para a música? Deixar um legado é fazer um trabalho verdadeiro e além de muito popular, de coração. Trabalhar para a sua família. Trabalhe para a sua família que você não vai ter tempo de fazer nada errado. A vida é fé, amar a todos de verdade como irmãos. Você pode ser traído, mas ame. Maior do que o amor não existe.
Jul 8, 2022
Karine Teles: A arte para mim é quase uma religião
Atriz de filmes sucesso de crítica experimenta o reconhecimento do grande público com a repercussão da novela "Pantanal" “Eu só fui entender tudo o que estava acontecendo, o tamanho da repercussão, quando a novela estreou”, conta a atriz Karine Teles sobre o sucesso da personagem Madeleine. Se foi somente com a sua aparição em “Pantanal” que Karine ganhou o reconhecimento do grande público, já faz muito tempo que ela goza do aval da crítica. Com atuações muito elogiadas em filmes como “Bacurau”e “Que Hora Ela Volta?”, a artista – que também é roteirista e diretora – se solidificou com uma das vozes femininas mais potentes do cinema nacional. Mas nem sempre foi assim. Nascida em Petrópolis e criada em Maceió, Karine escolheu a profissão já na adolescência. Hoje, como quase 30 anos de carreira, ela começa ter algum alívio financeiro, mas houve uma época em que fazia teatro para duas pessoas e precisava complementar a renda como professora de inglês e assistente pessoal. "Já fracassei muito. Quantas vezes cancelamos espetáculo por falta de plateia, com elenco maquiado, operador de luz e som, todo mundo pronto? Sou uma pessoa ferrada há tanto tempo que já neguei coisa que achava que não iria dar certo mesmo precisando de dinheiro. Mas no cinema eu dei muita sorte", conta. Maternidade A relação da atriz com a maternidade foi parar no cinema: Karine precisava dizer ao mundo que ser mãe não é nada romântico. A atriz decidiu então escrever uma história sobre uma mãe de quatro filhos que sonha em poder terminar os estudos, a ser interpretada por ela mesma. E assim surgiu Irene, de “Benzinho”. No longa atuam também os filhos gêmeos da atriz. "Veio um medo real de não dar conta. No primeiro ano eu tenho lapsos de memória gigantes porque de fato eu não dormia", diz sobre a maternidade.  Em um papo com o Trip FM, Karine Teles conta mais sobre a novela “Pantanal”, fala da infância, de cinema e das dificuldades de se tornar atriz. Leia um trecho abaixo ou confira o programa completo no Spotify e no Deezer. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/62bdca05519e2/karine-telles-pantanal-madeleine-atriz-novela-tripfm-mh.jpg; CREDITS=; LEGEND=Karine Telles, atriz que interpretou a personagem Madeleine da novela Pantanal; ALT_TEXT=Felipe Fittipaldi / The Guardian / Arquivo pessoal] Trip. Você acredita no poder transformador de um filme como “Que Horas Ela Volta?”, ou acha que já vai mais para o lado do sublime? Karine Teles. A arte para mim é o que existe de mais próximo com a religião. A potência transformadora da arte é milagrosa. O contato de uma pessoa com um filme pode transcender qualquer discurso: a gente sente fisicamente aquilo. Não há como explicar certas coisas se não for pela manifestação artística. Você fez filmes muito elogiados, mas nenhuma deles com essa abrangência de uma novela das nove. Como tem sido lidar com esse tipo de fama? Eu só fui entender o que estava acontecendo com Pantanal quando a novela estreou. Entender que estava fazendo uma personagem enorme. Pra minha sorte eu já tinha gravado 90%, porque aí eu fiquei nervosa: foi angustiante para a minha vida pessoal, mas não para o trabalho. O risco de dar errado era muito grande, porque é uma história de 30 anos que podia não ter mais apelo nenhum. Recentemente entrevistamos a Andreia Sadi, também mãe de gêmeos, que contou que é impossível dar conta de tudo. Como foi essa experiência para você? Eu tive uma gravidez incrível, fiquei com o cabelo bonito, com tesão, estava esplendorosa. Aí meus filhos nasceram e já descobri que a amamentação não é aquela coisa automática. Tem muita coisa que as pessoas não falam. Veio um medo real de não dar conta. No primeiro ano eu tenho lapsos de memória gigantes porque de fato eu não dormia.
Jul 1, 2022
Douglas Silva: O BBB me trouxe poder de negociação
Ator e finalista do BBB relembra papeis emblemáticos, fala de racismo, família e dinheiro: “Já passei por poucas e boas e nada me abalou" “No Big Brother Brasil, falar um grão de areia pode pesar toneladas”, diz Douglas Silva. Um dos finalistas do programa, o DG, como ficou conhecido, quase não entrou na casa com medo das consequências que a fama poderia trazer para a sua família. Mas aceitar o convite do BBB acabou sendo um acerto na carreira do ator. Indicado ao Emmy Internacional por seu trabalho na série “Cidade dos Homens”, Douglas finalmente pode decidir os projetos em que vai embarcar e, principalmente, por qual tipo de remuneração. Aos 34 anos, o ator acumula vinte de carreira, já que começou carreira ainda criança vivendo inesquecível Dadinho, de “Cidade de Deus”. Sobre seu desempenho no filme que dividiu águas no cinema brasileiro, ele lembra: “A preparação de elenco foi fundamental, mas a minha vivência na favela ajudou muito também”. O artista nasceu na favela da Kelson’s e, incentivado por uma professora, começou no teatro aos oito anos. Obstinado, DG mergulhou em toda oportunidade e, desde o seu primeiro teste, já para o célebre filme de Fernando Meirelles, nunca parou de trabalhar. “Precisei acreditar muito em mim para tirar a minha família do buraco de onde tirei”, diz. Em um papo alto-astral com o Trip FM, Douglas falou da infância, de racismo e paternidade: “Já passei por poucas e boas e nada me abalou.” Leia um trecho abaixo ou ouça a entrevista completa no play aqui em cima ou em nosso canal do Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/62b5ffffc065f/douglas-silva-dg-bbb-ator-tripfm-mh.jpg; CREDITS=@euthiagobruno; LEGEND=Douglas Silva; ALT_TEXT=Douglas Silva] Trip. A atriz Viola Davis tem um discurso famoso em que compara a carreira dela com grandes nomes do cinema e diz não estar nem perto de uma Mery Streep, por exemplo, em termos de grana. Como é esse aspecto da sua carreira? Douglas Silva. É só você comparar tempo e volume de trabalho de um preto e um branco: qual é o status de cada um? É ruim, mas a gente segue batalhando; eu não me esmoreço. Meu objetivo é deixar a minha família bem. Agora eu estou na crista da onda, só agora nesse lugar com poder de negociação. É ruim eu ter precisado de 22 anos de carreira, com filme indicado ao Oscar e indicação ao Emmy, para atingir uma remuneração que eu ache justa. Pessoas que não tem nem a metade dos anos de carreira que eu tenho estão deslanchando em grana.  O Babu já falou a seguinte frase em uma entrevista para a Trip: "Eu não consegui notoriedade com a minha arte, consegui com um show de entretenimento, onde todo meu conhecimento não foi usado, no sentido de construção de personagem. Às vezes é frustrante viver da arte no país". Você se sente da mesma forma? Ter ganhado fama no BBB não me incomoda. Eu sei me reinventar. Com 34 anos, ainda sou jovem, apesar de estar na pista desde os dez. Óbvio que é triste ter que estar 100 dias dentro de uma casa para o Brasil me conhecer. É triste por eles que não se alimentam de cultura. Dá pra consumir muitas outras coisas. Mas está sendo muito bom ter participado do Big Brother. Você é otimista em relação ao Brasil? Eu sou muito otimista: hoje a minha realidade é muito diferente de todos os meus amigos. Precisei acreditar muito em mim para tirar a minha família do buraco da onde eu tirei. Eu creio muito que a gente possa ter um país com mais igualdade. Racismo não é uma doença, racismo se ensina – você pode quebrar isso na base.
Jun 24, 2022
Jaques Morelenbaum: O Brasil desperdiça música
Potência da MPB com mais de 800 discos gravados, o arranjador e violoncelista fala de Tom Jobim, Caetano e da cultura no país “A música é muito multifacetada e rica; sempre quis experimentar de tudo. Por isso que já trabalhei com tantas pessoas diferentes”, conta o instrumentista e arranjador Jaques Morelenbaum, potência da música brasileira que participou de mais de 800 discos em sua carreira. De Tom Jobim a Ira!, de Gilberto Gil a banda de rock progressivo A Barca do Sol, Jaques já fez de tudo, mas confessa que no sertanejo não se empolgou muito: “São arranjos muito bobinhos”. Beatlemaníaco quando jovem e filho de músicos eruditos, Jaques foi dissuadido pelo pai a seguir a linha profissional da família, mas após um ano cursando economia ele não pôde mais negar as suas raízes. No início, ainda pensava em ser famoso e vender milhões de discos, mas a realidade bateu rápido e os estudos se intensificaram. Como talvez o único violoncelista pop no Brasil dos anos de 1970, Jaquinho – como é conhecido – permeou a MPB, ficou ao lado de Tom Jobim por dez anos e trabalhou com Caetano por 14. Apesar da extensa carreira, confessa que viver de música no Brasil é difícil. “É uma vida cheia de ondas. Mês que vem vou fazer vinte shows e dar uma respirada, mas durante a pandemia eu precisei tirar dinheiro de debaixo do colchão para sobreviver.”  Em um papo com o Trip FM, Jaques Morelenbaum contou sobre o brilhantismo de Caetano Veloso, opinou sobre as críticas que Tom Jobim enfrentou no Brasil e ainda falou sobre fama e bebida. Confira um trecho abaixo, ou ainda escute o programa inteiro no play ou no Spotify. [IMAGE=https://revistatrip.uol.com.br/upload/2022/06/62a2669ce41e8/jaques-morelenbaum-musico-violoncelista-caetano-veloso-tripfm-mh.jpg; CREDITS=undefined; LEGEND=undefined; ALT_TEXT=undefined] Trip. Já ouvi o Caetano Veloso se definindo como um instrumentista menor. No estágio em que ele chegou é possível avaliar isso ou já estamos em um campo muito subjetivo? Jaques. É muito subjetivo. A criação, as composições, o canto, a luz que emana do Caetano é tão brilhante e toca tanto as pessoas que os detalhes não são importantes. Para todos, é claro, menos para ele. Eu sei que, como músico, o artista está sempre em evolução. E quanto mais genial é o músico, mais ele sabe o quanto falta para atingir o que quer atingir. A gente está sempre procurando melhorar. O Gilberto Gil tem uma facilidade para tocar o violão que é absurda, algo que o Caetano não tem tanto. Por outro lado, ele tem uma facilidade para construir paraísos artísticos que supera qualquer coisa. Ele tem um ouvido privilegiado, apesar de não ter tido uma educação formal. Você já fez muitos trabalhos, mas imagino que não seja reconhecido em um shopping, por exemplo. Você já procurou esse tipo de fama? Como beatlemaníaco, quando jovem, eu provavelmente procurei ser famoso. Havia um sonho de vender milhões de discos. Quando isso não aconteceu, eu caí na real e resolvi estudar. Como eu era violoncelista e arranjador, ou eu ficava famoso como parte de um grupo ou eu partia para estar muito bem preparado. Quando me lancei profissionalmente, acabei sendo chamado por todo tipo de músico porque naquela época eu deveria ser o único violoncelista pop do Brasil, mas sempre ao lado de um grande nome: Tom Jobim, Caetano, Gil, Gal... Dentro da cena pop ou você é cantor e compositor ou você aceita a condição de ser um coadjuvante. Eu me satisfiz com isso. Você já gravou todos os estilos musicais, inclusive sertanejo, o maior fenômeno do Brasil já há algum tempo. Como você vê isso? Eu sempre aceitei todo tipo de trabalho como forma de aprender música e aprender sobre a vida. Mas te confesso que nunca me senti atraído pelo sertanejo. Me desculpem aqueles que gostam, mas para mim é um pouco básico demais, bobinha. Não me empolga. Eu vejo esse Brasil do Villa-Lobos, do Tom Jobim, do Milton Nascimento, Caetano e Gil desperdiçado por uma elite que sempre se esforçou para não educar o povo. Vivi a ditadura e percebi como a deseducação sempre foi usada como forma de dominação. O Brasil é tão querido e admirado lá fora como fonte de energia criativa, algo que fica desperdiçado aqui.
Jun 10, 2022
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