
"Acho que quando você conversa com pessoas que estão se preocupando com o que tá acontecendo, estão se sensibilizando, aí eu acho que a gente consegue ter uma dimensão maior de que a gente não tá sozinho, sabe? De que tem muitas outras pessoas lá fora que não são negacionistas, que estão olhando pra questão política de uma maneira bastante séria, e que estão se sensibilizando mesmo com todas essas mortes. Eu espero que isso possa fazer com que outras pessoas, que não necessariamente participaram do projeto, mas que escutem alguns episódios, ou algum episódio, possam sentir um pouco dessa força também, de que há muitas pessoas que estão se preocupando sim com essa pandemia, e estão sim pensando no futuro, e estão sim querendo contribuir. Por mais que seja muito pequeno, sabe, num contexto muito pessoal, eu acho que é muito importante a gente ter mais essa dimensão do ser humano mesmo, sabe? Isso faz com que a gente fique mais forte, nos fortaleça mesmo para enfrentar esse pós-pandemia no Brasil que eu acredito que vai ser bastante difícil, e já tá sendo".
ISABELLA YOSHIMURA, 25 anos, em conversa no dia 25 de julho de 2021.
Entrevista: Tomaz Volpi
Foto: José Miguel Neto
Pesquisa científica mencionada no episódio: https://revistapesquisa.fapesp.br/o-efeito-tranquilizador-da-narrativa/
Oct 15, 2021
25 min

"Eu acho assim, o profissional da saúde trabalhou ali naquele momento, como se diz? A gente não via o mundo, a gente focou naquilo. A partir do momento que o mundo tá se curando, o profissional da saúde tá se vendo doente né, psicologicamente. Eu acho que é mais ou menos assim a ideia, né? E aí agora a gente tá tendo esse apoio psicológico. O profissional da saúde não é só o profissional, a gente tem uma vida lá fora, a gente precisa viver. É o recomeço né do Brasil, eu acho que cada brasileiro ali ficou com sua sequela psicológica nesse momento. Né, assim, o desemprego, as perdas. Eu acho que não é só eu, quando eu olho assim, não é só eu né, gente? Eu acho que assim, eu nunca tinha estudado, visto falar, nunca tinha ouvido, nunca tinha ido a fundo sobre tantas pandemias que já teve no passado. Assim, ao mesmo tempo que olha para o Brasil com medo, eu olho para o Brasil com medo, mas ao mesmo tempo também a gente olha com esperança, baseado que já teve muitas pandemias e as pessoas superaram. Então isso também tem um lado assim da gente olhar, né?"
MARIA CRISTINA SOUZA, 44 anos, em conversa no dia 6 de agosto de 2021.
Oct 13, 2021
49 min

"Eu acho que o projeto humano faliu. O projeto humano tá numa decadência assim bem grande, e a gente tá aprendendo de uma maneira bem custosa quais são os efeitos dessas ações que foram postas no mundo ao longo desses anos todos, e nos últimos anos com essas questões industriais, do capitalismo, das questões de consumo também".
HELIO TOSTE, 32 anos, em conversa no dia 25 de setembro de 2021.
Oct 11, 2021
43 min

"Quero um futuro democrático. Que seja de esquerda, que seja de direita, mas que seja democrático. Eu acho que com a pessoa minimamente digna no poder e não esse cara que a gente elegeu, sabe? É isso e que, principalmente, além dessa pessoa melhor no poder - que acho que qualquer pessoa que entrasse agora ia ser melhor -, eu queria sei lá uma consciência no Brasil assim. Acho que é até clichêzão falar isso, de tipo, votaram, olha tudo que aconteceu. É isso mesmo? A gente vai continuar com isso? Olha tudo que aconteceu e olha para frente. Eu tenho medo desse cara ser reeleito por exemplo no nosso país, porque uma coisa que eu percebi muito é que hoje nosso país é um país muito preconceituoso. É um país muito homofóbico. A gente vê um presidente lá que tem claramente discursos racistas, homofóbicos, preconceituosos. Eu acho que isso é um pouco o reflexo da gente, porque se a gente não fosse diferente disso, talvez a gente não aceitaria uma voz dessa governando o nosso país. É sério que esse cara falou essa frase hoje? Ou sério que ele se comportou dessa maneira? Sério que aconteceu tudo o que a gente sabe que tá acontecendo desde que ele entrou, e principalmente na pandemia? Então que eu quero do Brasil do futuro é isso que você perguntou, mão na consciência. E pensamento no coletivo eu acho. Escolher alguém que, talvez não vai ser o melhor cara para você, mas você é só você assim, sabe? Olha ao redor, se conecta com as pessoas do seu lado, entende que a gente é uma coisa muito maior. A gente não é só gente assim, sabe?"
JOSÉ MIGUEL NETO, 28 anos, em conversa no dia 24 de julho de 2021.
Oct 1, 2021
19 min

"Eu acho que vai ter diferentes pensamentos, diferentes perspectivas após a pandemia né. Acho que cada pessoa vai viver uma pós-pandemia de acordo com a sua vivência na pandemia. Se for uma pessoa que não teve essa oportunidade de refletir, de se auto descobrir, ela vai continuar a rotina normal do dia a dia. Mas se foram pessoas que utilizaram desse espaço pra aprender e observar o que realmente gosta, que conseguiram estar nesse lugar e tiveram essa oportunidade, vão ter uma outra forma de vida. É isso, acho que cada pessoa vai ter uma reação diferente de outra pessoa. Pra mim, eu tive a oportunidade de aproveitar. Aconteceram coisas difíceis, mas teve momentos de aprendizado e que eu pude ampliar a minha visão e melhorar a minha vida, enquanto [em] vida".
RAPHAEL POESIA, 27 anos, em conversa no dia 8 de julho de 2021.
Sep 29, 2021
21 min

"Aí eu falei com o médico e ele falou: 'Ó, eu já tô pedindo a sua internação, porque o seu pulmão tá de 25 a 50% comprometido". Do nada. E só tava eu, porque não pode entrar acompanhante né. E eu: 'Como assim?'. Nisso já comecei a chorar né. [O médico falou] 'Não, calma. Isso é mais por prevenção, pra você ter um acompanhamento. Aí depois de sair, o enfermeiro já vem te buscar'. Não deu tempo de falar com ninguém. Aí o enfermeiro já chegou, me colocou numa salinha de espera, aí eu liguei para o Fê, ele fez uma mala e levou para lá. Eu nem vi ele, nada. Eu não conseguia comer. Eu não perdi o olfato nem o paladar, porque eu não conseguia. Só o cheiro da comida me dava enjoo. E era bizarro, [eles falavam:] 'você tem que comer, você precisa beber água'. Mas eu não bebia água, porque quando me dava vontade de ir ao banheiro, me dava desespero. Porque se eu colocava o pé no chão, eu já ficava sem ar. E a cada ida ao banheiro era uma eternidade pra mim. Era o pior desespero da vida".
JÚLIA TOLEDO, 25 anos, em conversa no dia 24 de julho de 2021.
Sep 27, 2021
37 min

"Assim, eu acompanhei duas mortes de muito, muito, muito próximo. Eu acompanhei a do meu avô, que ele teve mais de um ano para se despedir da gente. Ele queria milho, queria ver galinha, queria plantar mandioca. A gente mimou o nosso velhinho até onde deu. Com relação ao meu pai, ele foi para o hospital, saiu, e a gente não viu mais. Não teve isso da gente se despedir, não teve... Eu queria muito assistir um filme antes dele ir, eu queria comer um pastel, e isso foi tirado da gente. Isso é muito desumano. Eu sei que tem pessoas com situações muito piores, mas isso é uma cicatriz que muitas pessoas vão carregar, e a gente sabe que podia ter sido diferente. E por mais que tenha sido em março, é um pesadelo diário. Eu queria muito falar: 'Nossa, mas eu a gente já tá melhor'. Eu não tô. Eu lembro que no dia que eu recebi a notícia eu tava no quarto, eu não consegui dormir no dia. O meu quarto fica uns cinco cômodos de distância da sala, que era onde minha mãe tava dormindo. Eu ouvi o celular dela tocar de longe, e depois do meu irmão no quarto dele, e depois o meu celular tocou, pedindo para gente ir lá para o hospital. E eu não tenho mais coragem de deixar meu celular tocar. É um pesadelo que a gente vive diariamente".
ERICK CHAGAS, 28 anos, em conversa no dia 6 de julho de 2021.
Sep 24, 2021
23 min

"Eu gosto de observar como é que vão sendo as coisas. Na minha área mesmo, por exemplo, você tá vendo aqui na sala que tem divã, e no online não tem divã. Então são novos o que a gente chama de 'settings', são novos settings que vão ter que ser criados. A pessoa não liga a câmera, ela tá atrás da câmera, atrás da tela ou não tá? Ou mesmo por exemplo pessoas que abrem a cam e estão de pijama, tão deitadas na cama e estão numa classe. É errado, é certo? Não, não tem um errado é certo, mas dentro desse contexto, por exemplo, o que que leva uma pessoa a se mostrar em público - nós estamos numa sala de aula, mesmo online, ela tá em público -, de uma maneira tão íntima? Será que pessoalmente ela iria de pijama para a aula? Mas por que que no online ela vai? Então o que que motiva isso? Que consequências isso pode ter, isso futuro vai mostrar para gente. Eu poderia tá elucubrando aqui, mas eu também não sei exatamente quais seriam as consequências disso. Porque nós estamos ainda vivendo isso. E mesmo pós-pandemia, eu acredito que a gente vai ter que um bom tempo de observação, porque se formou uma nova cultura. Nós já estamos dentro de uma nova cultura que eu estou acompanhando e vendo, dentro da minha área e tentando ver dentro de outras áreas, como é que as pessoas estão se costurando, como é que elas estão pensando, ou como é que elas estão agindo, o que que levou a agir deste jeito, né. Então eu continuo observando".
ANTONIO GERALDO DE ABREU FILHO, 68 anos, em conversa no dia 5 de junho de 2021.
Transcrição da conversa: https://saopauloisolada.com.br/?p=639
Sep 21, 2021
29 min

"Porque eu acho que existe uma narrativa que é muito do retorno, né? A gente foi privado de uma tanta coisa, [durante] tanto tempo, e aí beleza, agora tá tudo bem. Vai ser meio aquele momento de tipo fogos de artifício assim, todo mundo tipo: 'Nossa, finalmente!'. Só que de novo, isso para quem? Quem que vai poder comemorar isso? Cara, quem perdeu parente não vai comemorar isso do mesmo jeito, né? Enfim, por mais que as coisas queiram que a gente chama de "normal", cara, não é normal o que vai acontecer agora na volta. Não é normal o que está passando. Não sei se a gente vai conseguir normalizar essa situação. Tá todo mundo meio que em ebulição assim né? Tudo vai voltar àquele ritmo louco assim, mas com essa tragédia no nosso retrovisor assim bem pertinho da gente, né? Como que isso tudo vai se converter pra gente eu não tenho a menor ideia, mas de novo, eu espero que isso seja um crescimento. Espero que a gente lembre, leve os aprendizados para isso: 'Ó, esse aqui é o preço que se paga quando a gente faz escolhas burras', achando que uma pessoa que já tinham sinalizado para gente que não defende a ciência, que tipo é preconceita, homofóbica, racista, machista, incompetente, corrupta. Você põe uma pessoa dessa para gerenciar um país achando que o que vai acontecer é… Um milagre, né? Só pode".
ADAUTO BRAZ, 24 anos, em conversa no dia 4 de julho de 2021.
Transcrição da conversa: https://saopauloisolada.com.br/2021/09/20/quem-que-vai-poder-comemorar-isso/
Sep 20, 2021
34 min

"A gente tá no topo de vários índices muito negativos, e quanto mais pobre, ou quanto mais negro, ou quanto mais você se encaixa no perfil das minorias sociais, mais risco você sofre. Então é um país que, pelo menos pra mim, é um país difícil de lidar assim. É tipo uma casa que você tá porque é a sua casa, mas é uma casa que você não é dali. É um não-lugar. Acho que tem isso. Ai pensar pro futuro, eu só consigo pensar que teria que começar de novo, porque já começou errado, né? A gente, tipo assim, a gente começou um país nasceu sob o genocídio dos povos indígenas, depois toda a economia sobre a mão de obra escravizada, de pessoas que foram trazidas de outro continente. (...) A Coalizão Negra por Direitos, que é uma organização da sociedade civil do movimento negro, diz que a gente precisaria de uma nova abolição da escravatura. Acho que a gente precisaria de uma nova independência assim. É um novo país assim de fato, porque... Eu não sei, por outro lado talvez seja pessimismo da minha parte, mas eu acho que a gente evoluiu muito pouco para ser um país melhor. A gente tem algumas conquistas, sei lá, hoje algumas pessoas negras conseguem entrar na faculdade, mas se você for comparar o todo são pouquíssimas pessoas, e essas pessoas elas continuam sendo muito mais mortas do que pessoas brancas, por exemplo, e as mulheres negras são muito mais mortas que as brancas. (...) Acho que é fazer um novo Brasil, é refundar mesmo. E é isso, refundar com quem deveria refundar mesmo, quem é dono. Não é dono no sentido de propriedade, "é meu", mas no sentido de quem cuida, de quem de fato valoriza e tem o país e a terra como elemento sagrado, que não pode ser destruído e nem pode estar à mercê do capital do lucro de meia dúzia de pessoas como que é hoje com essa riqueza concentrada".
LUCAS VELOSO, 26 anos, em conversa no dia 3 de julho de 2021.
Transcrição da conversa: https://saopauloisolada.com.br/2021/09/17/eu-acho-que-a-gente-evoluiu-muito-pouco-para-ser-um-pais-melhor/
Sep 17, 2021
29 min
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