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Contigo, companheiro que chegaste,desconhecido irmão de minha vida,reparto esta esmeralda que retiveem meu peito no instante fugitivomas infinito em que se acaba a infância,porque a esmeralda não se acaba nunca.Reparto, companheiro, porque chegasa este caminho longo e luminosomas que também se faz áspero e duro,onde as nossas origens se abraçaramdissolvendo-se em paz as diferenças,engendradas na vida pela forçaferoz com que desune o mundo os homensque feitos foram para cantar juntosporque só juntos saberão chegarpara a festa de amor que se prepara.(...)O tempo é de cuidados, companheiro.É tempo sobretudo de vigília.O inimigo está solto e se disfarça,mas como usa botinas fica fácildistinguir-lhe o tacão grosso e lustrosoque pisa as forças claras da verdadee esmaga os verdes que dão vida ao chão.O tempo é de mentira. Não convémdeixar livre o menino da esmeralda.Melhor é protegê-lo da violênciaque amarra a liberdade em pleno vôo.A sombra já desceu, e muitas faucesfamintas se escancaram farejando.Cuidado, companheiro, esconde a rosa,espanta a mariposa colorida,é perigosa esta canção de amor.Cada um no seu lugar, na sua vez,não descuidar na espreita do inimigo,que não dorme jamais e é cheio de olhos.E derramar a luz, no instante certo,sobre a garra soturna do seu rosto.É uma espera que dói, mas o que valeé ter o coração por cidadela,acender uma tocha em cada metrode terra conquistado e trabalharmelhor, para que o chão floresça maise o trigo erga bem alto o seu pendãopara a festa de amor, larga e geral,onde a fome afinal não vai dançar,porque não comerão somente eleitos,porque são todos os que comerão.É por isso que estamos todos juntos:a nossa força tem o sortilégioda seiva torrencial da primavera,e o nosso amor palpita como os ímpetosdas águas amazônicas profundas.É cantar, companheiro, e repartiro que é preciso ser do amor geral.Ninguém será sozinho nunca mais,nem na solidão, nem no poder.Sempre contigo irei, e é quando cantoque te defendo, e deito em tua lâmpadaum azeite que dura a treva inteiranesses tempos de cinza em que a vigília,espada em flama erguida como a rosa,só poderá cessar quando outra vez,envergonhada, regressar a aurora,que vai lavar de luz o chão amado,e seremos de novo e simplesmentemeninos repartindo as esmeraldas.



