
Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo.
Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há um tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.
Mar 15, 2021
54 sec

Se te pareço ausente, não creias:
hora a hora minha dor agarra-se aos teus braços,
hora a hora meu desejo revolve teus escombros,
e escorrem dos meus olhos mais promessas.
Não acredites nesse breve sono;
não dês valor maior ao meu silêncio;
e se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
teus lábios nos meus lábios para ouvir.
Nem acredites se pensas que te falo:
palavras
são meu jeito mais secreto de calar.
Feb 11, 2021
54 sec

meu deus
não espera dentro da igreja
ou na escadaria do templo
meu deus
é o fôlego da refugiada que corre
é a barriga da criança com fome
é o batimento no peito do protesto
meu deus
não descansa entre as páginas
escritas por homens sábios
meu deus
mora entre as coxas suadas
das mulheres vendidas por dinheiro
foi visto pela última vez lavando os pés de um mendigo
meu deus
não é tão distante
quanto eles às vezes dizem
meu deus pulsa dentro da gente infinitamente
Feb 11, 2021
1 min

tá tudo bem se você achar que agora ainda não é a hora
eu só queria que você lembrasse que as coisas passam
que as horas passam
sejam contadas através do calendário gregoriano
ou pelo tempo que permanecemos nos encarando sem piscar
os dias marés as dores e a graça passam também
as histórias passam as carreatas com políticos falidos passam
a moda a idéia a escada rolante
essa vontade de nos engolirmos
o calor o arrepio esse momento de contemplação de cada marca do rosto
memórias passam certas mágoas rancores e amores passam
esse ímpeto de jogar meu corpo no chão para você não passar
para você se jogar comigo em mim também passa
se você continuar acreditando que o destino tem mãos infinitas
onde se pode jogar tudo nelas
se você não perceber que seguro na extremidade do instante
e estico estico estico de modo que ele dure até você notar
se não sentir que teu corpo grita de alegria quando vê o meu
e tua mente rebelde se afasta com a convicção de que sabe o certo
se nada disso lhe soprar que podemos viver o vento fresco da primavera
sem pensar no calor do verão que nos acorda
abro todas as janelas e portas
te arranco de cada pedaço de mim
libero as estradas do tempo para que você passe
pode ser que eu demore
mas cedo ou tarde
passarei também //// @sementeviva
Feb 4, 2021
2 min

Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.
Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.
Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.
Dec 29, 2020
1 min

A terra é um bem comum
Que pertence a cada um.
Com o seu poder além,
Deus fez a grande Natura
Mas não passou escritura
Da terra para ninguém.
Se a terra foi Deus quem fez,
Se é obra da criação,
Deve cada camponês
Ter uma faixa de chão.
Quando um agregado solta
O seu grito de revolta,
Tem razão de reclamar.
Não há maior padecer
Do que um camponês viver
Sem terra pra trabalhar.
O grande latifundiário,
Egoísta e usurário,
Da terra toda se apossa
Causando crises fatais
Porém nas leis naturais
Sabemos que a terra é nossa.
Dec 29, 2020
1 min

eu era gases puro, ar, espaço vazio, tempo
eu era ar, espaço vazio, tempo
e gazes puro, assim, ó, espaço vazio, ó
eu não tinha formação
não tinha formatura
não tinha onde fazer cabeça
fazer braço, fazer corpo
fazer orelha, fazer nariz
fazer céu da boca, fazer falatório
fazer músculo, fazer dente
eu não tinha onde fazer nada dessas coisas
fazer cabeça, pensar em alguma coisa
ser útil, inteligente, ser raciocínio
não tinha onde tirar nada disso
eu era espaço vazio puro
Dec 22, 2020
1 min

Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.
Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
Dec 4, 2020
52 sec

O espelho me mostra uma imagem que construo
Dessa carcaça que peguei emprestada
Vou devolver com a etiqueta de frágil rasgada
E cheia de marcas
Não vieram instruções na embalagem
Investigo e uso à vontade
Antes que seja tarde
O que o espelho não mostra
As vezes consigo ver
As vezes não
As vezes veem
As vezes criam
As vezes some
O que o espelho não mostra
Eu sinto
Está aí dentro dessa carcaça
Assim como em qualquer desgraça
E numa garça
Distante
Que faz como tudo o que é real
- Passa
Dec 4, 2020
1 min

Gloria Anzaldua em “Falando em línguas: uma carta para mulheres escritoras do terceiro mundo”
“(...) Por que sou levada a escrever? Porque a escrita me salva da complacência que me amedronta. Porque não tenho escolha. Porque devo manter vivo o espírito de minha revolta e a mim mesma também. Porque o mundo que crio na escrita compensa o que o mundo real não me dá. No escrever coloco ordem no mundo, coloco nele uma alça para poder segurá-lo. Escrevo porque a vida não aplaca meus apetites e minha fome. Escrevo para registrar o que os outros apagam quando falo, para reescrever as histórias mal escritas sobre mim, sobre você. Para me tornar mais íntima comigo mesma e consigo. Para me descobrir, preservar-me, construir-me, alcançar autonomia. Para desfazer os mitos de que sou uma profetisa louca ou uma pobre alma sofredora. Para me convencer de que tenho valor e que o que tenho para dizer não é um monte de merda. Para mostrar que eu posso e que eu escreverei, sem me importar com as advertências contrárias. Escreverei sobre o não dito, sem me importar com o suspiro de ultraje do censor e da audiência. Finalmente, escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever.”
Sep 30, 2020
1 min
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