
botei teu nome no barco e pedi ao mar que o levasse consigo o mar navegou teu nomeas grandes ondas quase o afogaram teu nome naufragou por anos até que nesta manhã a correnteza o trouxe de volta meu coração agorajá não é mais ilha é uma cidade habitada onde viverá teu nomese não em mim? escrevo teu nome em tijolo construo uma casa com eleessa noite me abrigarei sob o som do teu nome
Jun 23, 2025
54 sec

Eu deixei um bilhete sobre a mesa para quando você acordar. Eu tive que sair muito cedo e não sabia exatamente que palavras deixar. Eu queria te dizer várias coisas sobre a noite, coisas que começariam com palavras claras e doces, mas ligeiramente ácidas, e depois um pequeno segredo e uma declaração firme e discreta e por fim uma frase que seria fria por fora e quente por dentro como uma sobremesa francesa. Mas foi tão difícil, o sol batia de leve sobre a mesa, você dormia tão próximo e eu ainda não tinha calçado os sapatos, o que certamente interferiu um pouco na minha caligrafia. Seu apartamento de manhã ainda decorado com os restos da noite. Eu não sabia o que dizer, e se a única caneta que encontrei era vermelha você pode supor meu sobressalto e então eu apenas escrevi É tão tarde, mas eu estou pronta se você estiver e desenhei sem cuidado no canto esquerdo do papel um pequeno veleiro.
Jun 23, 2025
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eu queria adormecer em um botão de flor.sem afobação, vou ao mercado três da tarde comprar alface americana, embora prefira produtos locais.é terrível. terrível ter que explicar ironia.não quero ser a melhor em nada, mas tento não ser a piortambém se for, paciência.como diz um amigo: “sejamos medianos”.não tenho sete vidas.vai ser nessa mesmo que arriscarei um poema mas não. não pularei de bungee jump.vivo com fome, tenho fixação pela boca e poesia me abre o apetite.no reino animal, é a leoa que sai pra caçar.eu, como mulher, felina e sozinha, vou lá e faço.mas prefiro que me peguem pela barriga.eu queria caminhar no teu sonho, mas ainda estou peregrinando pelo meu.sempre achei que morreria cedo e hoje acordocom uma coragem de viver 110 anos.sem a fo ba çãosenão, não quero.
Jan 16, 2025
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Trecho do livro “Navegação de Cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei”Tenho centenas de objetos inúteis, não me servem para nada, não posso viver sem eles. […] Nos aviões roubo guardanapos, talheres nos restaurantes, sobretudo colheres de café, nos hotéis recolho e levo para casa todo o material de banho e o que mais haja, meu acervo de sabonetinhos é digno de visita e vistoria pela quantidade e pela variedade intercontinental. […] O hábito dessas pequenas gatunagens eu o aprendi com meu tio Álvaro Amado, mão leve, por onde andava recolhia. Dormindo comigo na mesma cama há quase meio século, Zélia ainda não se conformou, até hoje torce a cara ao me ver enfiar no bolso o guardanapo com a rosa-dos-ventos, a dez mil metros de altura sobre o oceano.
Jan 15, 2025
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Sei poucas coisas sei que leré uma coreografiaque concentrar-se é distrair-sesei que primeiro se ama um nome seique o que se ama no amor é o nome do amorsei poucas coisas esqueço rápido as coisasque sei sei que esquecer é musicalsei que o que aprendi do mar não foi o marque só a morte ensina o que ela ensinasei que é um mundo de medo de vizinhançade sono de animais de medosei que as forças do convívio sobrevivem no tempoapagando-se porémsei que a desistência resisteque esperar é violentosei que a intimidade é o nome que se dáa uma infinita distânciasei poucas coisas
Jan 15, 2025
59 sec

Eu vivo clandestina e não é mole essa vida clandestinaMas posso me orgulhar da qualidade da minha peleE da temperatura do meu beijo,eu quero fazer com você um pacto de delicadeza.Eu quero me sentir Alteza,para te ceder todos os músculosSerá arbusto dos seus beijosVamos sair esburacando a madrugadatrocando beijos e tragadasA lua é uma lantejoula da Nasaque brilha leitosa no meu vestido estrelado
Nov 26, 2024
46 sec

Os desiludidos do amorEstão desfechando tiros no peitoDo meu quarto ouço a fuzilariaAs amadas torcem-se de gozoOh quanta matéria para os jornaisDesiludidos mas fotografadosEscreveram cartas explicativasTomaram todas as providênciasPara o remorso das amadasPum pum pum adeus, enjoadaEu vou, tu ficas, mas nos veremosSeja no claro céu ou turvo infernoOs médicos estão fazendo a autópsiaDos desiludidos que se mataramQue grandes corações eles possuíamVísceras imensas, tripas sentimentaisE um estômago cheio de poesiaAgora vamos para o cemitérioLevar os corpos dos desiludidosEncaixotados competentemente(Paixões de primeira e de segunda classe)Os desiludidos seguem iludidosSem coração, sem tripas, sem amorÚnica fortuna, os seus dentes de ouroNão servirão de lastro financeiroE cobertos de terra perderão o brilhoEnquanto as amadas dançarão um sambaBravo, violento, sobre a tumba deles
Oct 17, 2024
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De que me serviu ir correr mundo,arrastar, de cidade em cidade, um amorque pesava mais do que mil malas; mostrara mil homens o teu nome escrito em milalfabetos e uma estampa do teu rostoque eu julgava feliz? De que me serviurecusar esses mil homens, e os outros milque fizeram de tudo para eu parar, milvezes me penteando as pregas do vestidocansado de viagens, ou dizendo o seu nometão bonito em mil línguas que eu nuncaentenderia? Porque era apenas atrás de tique eu corri o mundo, era com a tua voznos meus ouvidos que eu arrastava o fardodo amor de cidade em cidade, o teu nomenos meus lábios de cidade em cidade, o teurosto nos meus olhos durante toda a viagem,mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.
Sep 26, 2024
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gosto do som do meu nome saindo pela tua boca salgada“me adoça” você diz te envolvo no mel que escorre pelas pernas essa noite o mar vai virar rio teu riso: pólen dele me alimento e pouso em delicada flor dos lábios nosso romance tem cheiro de comida gostosarecém saída do forno me lambuzo da calda e enfio o dedo na sobremesa dos pratos onde comemos pouco me importam que fiquem largados que juntem formigas eu não vou observar de perto a passagem do tempo quero gastar a vida a provar sabores quero partilhar esse banquete com você ninguém vai nos servir. vai, comedesse prato você pode repetir
Sep 18, 2024
1 min

Há metafísica bastante em não pensar em nada. O que penso eu do Mundo?Sei lá o que penso do Mundo!Se eu adoecesse pensaria nisso. Que ideia tenho eu das coisas?Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?Que tenho eu meditado sobre Deus e a almaE sobre a criação do Mundo?Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhosE não pensar. É correr as cortinasDa minha janela (mas ela não tem cortinas). O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!O único mistério é haver quem pense no mistério.Quem está ao sol e fecha os olhos,Começa a não saber o que é o SolE a pensar muitas coisas cheias de calor.Mas abre os olhos e vê o Sol,E já não pode pensar em nada,Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentosDe todos os filósofos e de todos os poetas.A luz do Sol não sabe o que fazE por isso não erra e é comum e boa. Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvoresA de serem verdes e copadas e de terem ramosE a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,A nós, que não sabemos dar por elas.Mas que melhor metafísica que a delas,Que é a de não saber para que vivemNem saber que o não sabem? «Constituição íntima das coisas»...«Sentido íntimo do Universo»...Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.É incrível que se possa pensar em coisas dessas.É como pensar em razões e finsQuando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvoresUm vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão. Pensar no sentido íntimo das coisasÉ acrescentado, como pensar na saúdeOu levar um copo à água das fontes. O único sentido íntimo das coisasÉ elas não terem sentido íntimo nenhum. Não acredito em Deus porque nunca o vi.Se ele quisesse que eu acreditasse nele,Sem dúvida que viria falar comigoE entraria pela minha porta dentroDizendo-me, Aqui estou! (Isto é talvez ridículo aos ouvidosDe quem, por não saber o que é olhar para as coisas,Não compreende quem fala delasCom o modo de falar que reparar para elas ensina.) Mas se Deus é as flores e as árvoresE os montes e sol e o luar,Então acredito nele,Então acredito nele a toda a hora,E a minha vida é toda uma oração e uma missa,E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos. Mas se Deus é as árvores e as floresE os montes e o luar e o sol,Para que lhe chamo eu Deus?Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;Porque, se ele se fez, para eu o ver,Sol e luar e flores e árvores e montes,Se ele me aparece como sendo árvores e montesE luar e sol e flores,É que ele quer que eu o conheçaComo árvores e montes e flores e luar e sol. E por isso eu obedeço-lhe,(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,Como quem abre os olhos e vê,E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,E amo-o sem pensar nele,E penso-o vendo e ouvindo,E ando com ele a toda a hora.
Sep 9, 2024
3 min
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