Plantas na Serra
Plantas na Serra
Centre for Functional Ecology
Para curiosos e outros exploradores dos lugares de conhecimento, este programa oferece livre acesso a espaços reservados e visitas guiadas por material classificado. Nesta primeira série de dez episódios, temos encontro marcado com o investigador Filipe Covelo, no Herbário da Universidade de Coimbra. Uma vez por semana e com todo o cuidado, abrimos os armários da colecção portuguesa e usamos as expedições pela Serra do Caramulo como bússola. Das colheitas de outros tempos à informação ecológica mais recente, olhamos para cada folha de papel como se estivéssemos numa saída de campo.
Episódio 7: Arméria-das-beiras
Esta semana, por terra ou estrada, são vários e já muito percorridos os percursos possíveis para cumprir o mesmo destino: avistar a arméria-das-beiras. No caminho até à Torre da Serra da Estrela, pelo Caramulo ou a Lousã, é fácil encontrar junto aos caminhos esta espécie exclusiva do oeste da Península Ibérica – o difícil é distingui-la de outras plantas do mesmo género, mesmo para especialistas. Em Portugal, há mais de 20 espécies de armérias, que se caracterizam todas pelas inflorescências, em forma de pequenos pompons, diferindo nos habitats e zonas do país em que ocorrem, e em detalhes por vezes tão pequenos que têm de ser medidos a régua e lupa. A arméria-das-beiras, de nome científico Armeria beirana Franco subsp. beirana ocorre em zonas de montanha, tem maior presença na região das Beiras, pode ter mais de meio metro de altura e apresenta flores rosadas. É da família Plumbaginaceae, a mesma do limónio. Neste episódio, além de sondarmos as técnicas dos botânicos para identificar espécies em tudo parecidas, falamos também de plantas já extintas e das medidas de conservação propostas para as que vão perdendo terreno.
Jun 14, 2023
6 min
Episódio 6: Pútegas
O trilho desta semana leva-nos a terras mais agrestes e secas, pontuadas pelas vistosas flores dos arbustos que, na Primavera, enchem as serras de um aroma único. É no colo das estevas, roselhas e sargaços que podemos encontrar uma das plantas parasitas que mais alimenta as memórias das gentes do campo: as doces e comestíveis pútegas. Neste episódio vamos às raízes e o desafio é para levar à letra: esta espécie vive boa parte do tempo debaixo do solo. Sem clorofila, as pútegas alojam-se nas raízes das plantas hospedeiras para garantir todo o sustento que precisam e são vários os arbustos da família Cistaceae, como as estevas ou os sargaços, capazes de cumprir este propósito. O nome científico Cytinus hypocistis (L.) L., com origem no grego, assim atesta: é uma espécie que existe “debaixo dos cistos”. A época de floração, entre Maio e Junho, é por isso uma oportunidade a não perder para ver esta planta brotar da terra e revelar uma espantosa combinação de cores garridas num jogo curioso entre o amarelo e o avermelhado. As flores são, no entanto, bem rasteiras e para dar com elas é preciso andar de olhos postos no chão – se o prazer da descoberta não for suficiente, a promessa de néctar pode valer o esforço.
Jun 7, 2023
5 min
Episódio 5: Feto-Real
Neste episódio ficamos à sombra, com água fresca por perto e na expectativa de ver coroada uma planta que, de tão majestosa que é, tem o título de nobreza consagrado no nome: feto-real ou Osmunda regalis L., na designação científica. Com distribuição no centro e norte de Portugal, dá ares de sua graça grande parte do ano, mas a Primavera e o Verão são as melhores alturas para render uma visita. Além de grandioso, podendo atingir dois metros e meio de altura, o feto-real distingue-se também pela forma como se dispersa e dá a conhecer as estruturas reprodutoras. Esta espécie não dá flores, nem sementes, mas liberta pequenos grãos, que ficam em bolsas acastanhadas, conhecidas por esporângios. Localizadas no cimo das frondes, fazem lembrar uma coroa, sendo esta a provável razão de ser do nome atribuído a esta espécie. O feto-real existe em muitas outras áreas do mundo. Bosques ripícolas e zonas de sombra junto a ribeiros ou rios são coordenadas úteis a quem procura por esta planta.
May 31, 2023
4 min
Episódio 4: Satirião-manchado
Esta semana continuamos por terras húmidas, mas à procura de lugares ao sol e de uma planta com muita pinta: o satirião-manchado. Esta espécie distingue-se por ter manchas avermelhadas nas folhas, mas as exuberantes flores arroxeadas e com esporão colocam-na entre as orquídeas silvestres mais vistosas de Portugal. A região Centro ganha, no entanto, estatuto especial no território por estar na origem do nome científico Dactylorhiza caramulensis (Vermeulen) Tyteca atribuído a esta planta. Descrito a partir de colheitas botânicas feitas na serra do Caramulo, o satirião-manchado (também conhecido por satirião-macho) faz parte da família Orchidaceae, das orquídeas. Embora mais discreta do que as espécies ornamentais à venda em floristas e supermercados, esta planta tem um porte que pode chegar aos 30 centímetros de altura e é possível encontrá-la em prados, lameiros e junto a linhas de água, mas sempre em áreas com bastante exposição solar. Não são precisas grandes correrias para organizar uma visita de campo: entre Maio e o início de Julho, há muitos dias à escolha para ver esta planta em flor e descobrir também a que enganos recorre quando quer atrair insectos polinizadores.
May 24, 2023
5 min
Episódio 3: Loendro
As serras oferecem-nos oportunidades únicas para viajarmos no tempo. O maior desafio é saber reconhecê-las. Maio e Junho são os melhores meses para dar de caras com um arbusto bastante raro e que estabelece uma valiosa ponte até paisagens botânicas ancestrais: está em flor o loendro, uma relíquia que vem da floresta subtropical que dominava Portugal antes da última glaciação e que subsiste apenas na Península Ibérica, em núcleos muito reduzidos. Com uma longa e surpreendente história de adaptação, o loendro (ou adelfeira, como é conhecido mais a sul) acabou por encontrar refúgio em locais montanhosos, junto a cursos de água, como a ribeira de Cambarinho, em Vouzela, onde deu origem a uma reserva botânica. Da família Ericaceae, a mesma do medronheiro, do mirtilo e das urzes, este arbusto, de nome científico Rhododendron ponticum subsp. baeticum (Boiss.&Reut) Hand.-Mazz, pode chegar aos três metros de altura, destaca-se pelas grandes flores violáceas e atrai muitos visitantes. Mas a beleza nem sempre foi sinónimo de admiração: tempos houve em que poucos davam apreço a esta planta por ser venenosa. A colheita feita pelo botânico Júlio Henriques, ainda no séc. XIX, é por isso digna de nota.
May 17, 2023
7 min
Episódio 2: Pólio Montano
Esta semana andamos por maus caminhos: terras altas e de difícil acesso, próprias ao resguardo de tesouros naturais. É pelas montanhas do centro e norte do país, nas fendas de rochas, que vamos tendo a hipótese de nos cruzarmos com o pólio-montano, uma planta exclusiva de Portugal e que não precisa de muito solo para impressionar. Com menos de dois palmos de altura, lenhoso apenas na base e herbáceo em tudo o resto, o pólio-montano chama a atenção pelas muitas flores rosadas. A organização das pétalas é também característica: a corola tem dois lábios, o atributo distintivo das plantas da família Lamiaceae, que inclui conhecidas ervas aromáticas, como o alecrim, o rosmaninho ou a hortelã. Já as folhas fazem lembrar as da sálvia ou salva, o que pode servir de pista para o nome científico atribuído a esta espécie: Teucrium salviastrum Schreb. Ainda à volta da designação deste subarbusto, recuamos aos mitos da Guerra de Troia e ao naturalista e botânico alemão Schreber, o primeiro botânico a descrever esta espécie endémica de Portugal continental. Foi em 1773.
May 10, 2023
5 min
Episódio 1: Varinha-de-são-josé
Começamos esta viagem por meter o pé nos lameiros. Lugares de grande valor biológico, destacam-se na Primavera como locais únicos para observar espécies de distribuição restrita. É o caso da varinha-de-são-josé, também conhecida como açucena portuguesa ou Paradisea lusitanica (Cout.) Samp., na designação científica. Com presença apenas em Portugal e Espanha, podemos descobri-la em zonas de montanha mais a norte do país, junto a linhas de água. Distingue-se pelas flores brancas em forma de campainha (se vistas de lado) ou de estrela (quando abertas); mas é no caule que encontramos a provável razão de ser do nome comum dado a esta planta: liso e direito, pode atingir um metro e meio de altura, assemelhando-se a uma vara. Da família Asparagaceae, a mesma dos jacintos, dos espargos e da piteira, a varinha-de-são-josé está entre as ervas mais carismáticas do Caramulo e tem ainda o condão de ter sido descrita pela primeira vez pelo botânico António Xavier Pereira Coutinho. Neste primeiro episódio, seguimos ainda os naturalistas Abílio e Rosette Fernandes até São João do Monte e ficamos a saber como se organiza o mundo vegetal.
May 3, 2023
8 min