
Nesses dias, andei a me encharcar de Paris. Uma cadeia de acontecimentos levou-me a esse estado. O mote foi a leitura de algumas cartas do escritor argentino Julio Cortázar publicadas na revista Piauí, com uma envolvente apresentação do crítico David Arrigucci Jr. Já disse antes que gosto de ler cartas? Em geral são textos reveladores daqueles raros momentos de descuido em que a espontaneidade sufoca a razão e o sentimento abre espaço para a pureza das palavras. Pois essas virtudes estão lá nas missivas de Cortázar endereçadas aos seus entes queridos deixados em Buenos Aires. Só que ele não escreve de qualquer lugar, mas de Paris, por quem se apaixonou, ora vejam, sem a menor das resistências.
Oct 16, 2021
5 min

Ser bombonzeiro do cine Ideal tinha suas vantagens. Assistia a tudo quanto era filme.
Cestinha de vime pendurada no pescoço, balançava a caixinha de Mentex, para chamar atenção dos fregueses, e ia descarregando as diversas variedades de bombons diligentemente arrumadas nos doze compartimentos. Na verdade, diga-se de passagem, tanto vendia quanto consumia. Sonho de Valsa, a grande novidade da ocasião, era o meu preferido. Tanto que estabelecia sempre uma reserva de mercado, ou melhor, de consumo, no cantinho, dificultando a visibilidade por parte dos fregueses. Na hora de prestar contas, o que sempre acontecia logo após o apagar das luzes e o início do filme, em geral a contabilidade não batia em meu favor. O suposto apurado eu já havia consumido por antecipação. Não raras vezes, ainda ficava devendo uma pontinha para quitar no dia seguinte. Praticava o que os economistas do FMI chamariam, anos depois, de “rolar a dívida”. Não dava muita bola para o proveito financeiro. O ofício era apenas o grande pretexto que me abria as portas para conviver mais tempo com os muitos heróis habitantes da enorme e panorâmica tela do cine Ideal.
Oct 6, 2021
4 min

Para a meninada, entretanto, sedenta de novidades e aventuras, o anúncio que servia de mote para em poucos minutos estarmos reunidos era o que dava conta de que uma boiada a caminho do matadouro, no vizinho bairro da Glória, havia fugido e se espalhara pelo bairro. Alegria incontida, porque sabíamos que o resto do dia nos reservava aventuras só comparáveis às vividas por nossos heróis nas telas do nosso Cinema Paradiso.
Sep 16, 2021
4 min

Atire a primeira pedra quem não tem medo de cadeira de dentista. Seja uma extração, seja um trabalho de profilaxia, seja uma restauração, seja um implante, seja (meu Deus!) uma simples avaliação para projetar um orçamento... Neste último caso, em particular, o medo é redobrado. Sei que, tecnologicamente falando, tem sido uma das áreas que avançam com mais celeridade, com variadas técnicas e produtos modernos sempre de última geração. Mesmo assim, a aplicação de anestesia, por exemplo, apesar de hoje ser feita com uma agulha extremamente fina e delicada, acaba, entretanto, não aliviando a dor que, por antecipação, alimenta o extraordinário pavor de se acomodar em uma cadeira de dentista. Estou falando de mim, é claro.
Jul 16, 2021
4 min

Lembro-me bem de que, certo período, chegamos a morar em três diferentes casas na mesma rua, a da Cachoeira. De uma delas tenho vívida memória. Era construída sobre esteios a um metro do chão, o que nos protegia das enchentes mais agressivas do igarapé fronteiriço entre os bairros de São Raimundo e Glória. Mas a subida das águas, que alcançava os cinco degraus de madeira da porta principal, também nos proporcionava um espetáculo que hoje, para nossa tristeza, sobrevive apenas nos desvãos da memória. Atraíamos os peixes com restos de comida ou farinha e ficávamos a observar de camarote a frenética disputa entre eles nas águas ainda cristalinas do igarapé.
Jun 16, 2021
4 min

Para encurtar a história, como o Calango reinava absoluto no mercado, com vasta clientela nos vizinhos bairros de São Raimundo e Glória, sempre que um adversário conhecido ensaiava trançar, gritávamos convictos: “Não entra que é o mesmo cerol, o do Calango!”
Tempos depois, descobrimos estarrecidos que o bruxo Calango fabricava dois tipos de poção: a mágica, para seu próprio consumo, e a genérica, que abastecia a nossa ilusão. Passou a ser odiado.
May 26, 2021
5 min

O fato é que fazer papagaio era uma arte para poucos. Começava pela escolha da tala. Os mais exigentes acreditavam que a palmeira do buriti era a mais recomendada por sua flexibilidade. Passava pelo corte simétrico das peças e pela perfeita montagem do esqueleto, que precisava ter o peso milimetricamente dividido, para que o papagaio não ficasse penso. E o acabamento com os coloridos papéis de seda exigia o fino da criatividade. Lembro-me dos detalhes e dos complexos traçados das finas tiras que pacientemente iam se transformando no escudo do Sul América ou do São Raimundo, times do bairro, ou de outra agremiação pela qual o fazedor de papagaio nutria alguma admiração.
May 5, 2021
4 min

Como morávamos no bairro de São Raimundo e a grana fosse apertadíssima, três vezes por semana à tarde tínhamos uma longa jornada a enfrentar. Começava pela travessia do igarapé até o bairro de Aparecida. O pai de meu amigo, catraieiro, nos fazia economizar um trocado que sempre era investido num picolé, de buriti ou groselha, devorado com parcimônia ao longo do trajeto. Gostava de ouvir o movimento competente do par de remos da catraia. As mãos hábeis do catraieiro tinham tamanha familiaridade com os remos, que eles pareciam ser abraçados sem nenhuma resistência pelas águas do igarapé.
Apr 23, 2021
5 min

Explico-me. Lia um pequeno texto, em uma dessas revistas de bordo, que falava de uma nova opção de lazer chamada “turismo eólico”. Trata-se de conhecer e curtir vastos campos enfeitados por gigantescos moinhos, usados para a geração de energia limpa e renovável, coisa que os europeus, com muita sensibilidade, apelidaram de “fazendas de vento”. Num dado trecho, o autor ressalta ser muito antiga a admiração humana por moinhos. Foi o suficiente para eu fechar os solhos e me transportar. Deixei lentamente a revista de lado e fui conduzido a um outro contexto, bem distante no tempo, mas vivo na memória.
Apr 10, 2021
4 min

Só anos depois, já adulto e numa descontraída conversa entre irmãos, minha irmã mais velha, Chaguinha, que ajudara a nos criar, soube, alarmada, daquelas minhas gostosas peripécias.
Apr 1, 2021
4 min
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