
Alareer publicou o livro Gaza writes back, que é uma compilação
de crônicas de escritores de Gaza sobre a vida no território. E também publicou Gaza unsilenced, que significa Gaza não silenciada. Quer dizer, ele foi atuante em escrever e em incentivar outros escritores a contar sua realidade para o mundo, em impedir que seu território ficasse invizibilizado. Esse poema que eu vou ler, If I must die, que significa “se eu devo morrer”, ele escreveu quando esse último conflito começou, em outubro. E no poema tem uma frase que passa a tarefa de não se calar ao leitor ou interlocutor. O leitor deve levar adiante seu legado de manter viva a esperança das crianças de Gaza. O poema traz a imagem de uma pipa, que o interlocutor deve fazer na cor branca para que a criança em Gaza veja como um anjo. É uma mensagem de esperança escrita por alguém numa zona de conflito, sabendo que poderia morrer a qualquer momento e ainda assim refletindo sobre o futuro, sobre a necessidade de comunicar amor e esperança.
Jan 14, 2024
13 min

Entre os temas preferidos do poeta está a infância, em que o ponto de vista em alguns poemas é como se fosse o de um menino, é o olhar de criança sobre a vida. E em outros é uma constatação de que o menino ainda vive no adulto, que nem viu o tempo passar. O poeta coloca em sua poesia também a singeleza da vida, a morte, e fala muito na passagem do tempo.
Quanto à forma, Quintana assume forma livre. Bem alinhado com o momento em que ele escreve, que passou pela estética do Modernismo. Pelas temáticas abordadas, a poesia dele também se aproxima do Simbolismo, aquela estética que predominou no final do século XIX, no Brasil, e que combinava figuras de linguagem com imagens oníricas, vagas, etéreas. Em algumas poesias, Quintana constrói uma voz poética que explora essa temática.
Jan 8, 2024
13 min

Uma forma de começar a explicar um texto é dizer em que pessoa ele é narrado, se é em primeira pessoa, com o narrador participando da ação narrativa, ou em terceira, com o narrador contando a história de alguém. E nesse aspecto O cemitério de Praga é interessante, porque são três vozes narrativas: do protagonista Simone Simonini, do abade Dalla Picolla e do narrador.
Dec 24, 2023
24 min

Gregório era filho de
portugueses ricos e como acontecia naquela época para quem podia estudar, foi
fazer faculdade de Direito em Coimbra, Portugal. Como todos os brasileiros
filhos de portugueses tinham cidadania portuguesa, naquela época, ele é
considerado luso-brasileiro. Chegou a trabalhar em Portugal e lá já escrevia sátiras,
que são textos em prosa ou em verso, que ridicularizam as instituições ou os
costumes. De volta ao Brasil, ele se dedicou à poesia em diferentes estilos,
como lírico-filosófica, sacra, erótica, pornográfica. Mas são as suas poesias
satíricas atacando o governo e o clero que dão mais o que falar. Ele não tinha
papas na língua e atacava a hipocrisia da sociedade bahiana dizendo tudo o que
ele queria dentro dos versos. Isso rendeu várias inimizades e ele foi enviado
para Angola, outra colônia portuguesa. Ficou proibido pra sempre de botar o pé
na Bahia, mas conseguiu autorização de voltar ao Brasil. Morreu no Recife, em
1696, aos 60 anos.
Dec 13, 2023
22 min

“A loteria” foi publicado em um 26 de junho de 1948, na Revista The New Yorker. A história acontece em uma manhã ensolarada de 27 de junho, portanto a publicação em 26 de junho aumenta o efeito de terror da narrativa.
Mas eu não quero ficar antecipando muito, pra quem não conhece ter a sua primeira impressão com a leitura. No ano seguinte, a autora publicou o conto na compilação The Lottery and Other Stories.
Shirley Jackson teve a ideia de escrever o conto enquanto puxava o carrinho da filha numa subida, numa manhã. Ela chegou em casa, colocou a bebê no cercadinho, guardou as compras e sentou pra escrever. E escreveu em um fôlego só, do início ao fim, sem pausa. Essa versão é controversa.
Nov 21, 2023
1 hr

Vocês viram que o autor
coloca fim no romance, anuncia que o idílio dos dois está acabado, de Elza e de
Carlos, marca o fim e depois continua a narrativa. A página que está escrito
“fim” traz até uma arte que remete ao fim, com a palavra em caixa alta,
distanciada do texto e centralizada, como se tivesse acabado mesmo.
Como em um movimento
musical, o romance anuncia o fim e segue, num recomeço que nos remete ao um
ciclo. Mário de Andrade era musicista. Na música acontece esse movimento, de
marcar o fim e recomeçar a melodia. Ele usa desse recurso para conferir a ideia
de ciclo ao romance. Terminado o idílio com Carlos, Elza recomeça com novo
aluno, um que ela não gosta, Luís. Mas ela já está decepcionada, porque já
foram tantos, que agora já estão casados, encaminhados na vida – na vida
sexual/sentimental, ao menos – e ela segue presa nesse ciclo, sonhando em ter
um marido. Não consegue que algum aluno se apaixone a ponto de casar, nem
consegue voltar à Alemanha. Pra Elza, amar tem sido um verbo intransitivo, que
não encontra objeto a não ser no marido idealizado em sonhos. O amor dela não
encontra a quem se doar, nem ela é objeto de amor de nenhum dos burgueses que
iniciou sexualmente. Pra personagem Elza, amar é verbo intransitivo.
Oct 30, 2023
55 min

Vem aí o episódio #106 do podcast Literatura Oral, com a parte final da leitura comentada de Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade!
Oct 30, 2023
23 sec

No
último episódio, vimos que a presença de corais na narrativa ajuda a entender a
identidade de Elza, que considera mais importante o coletivo do que as
aspirações pessoais. No coral, que ela canta com os conterrâneos alemães nas
reuniões, e que ela sonha em ver apresentações quando for casada na Alemanha,
no coral o que prevalece é a voz do coletivo, em detrimento de uma voz
individual. A narrativa informa que nesse coral dos imigrantes alemães, os
homens cantavam melhor que as mulheres. Não fica claro se isso é pensamento de
Elza ou opinião do narrador. Mas Elza tem uma mentalidade um pouco machista, em
que ela sempre imagina o homem como provedor e a mulher como submissa, em casa,
à espera do marido.
Oct 16, 2023
55 min

Andrade era um intelectual, não só entendido de literatura como de música, e encheu o texto de referências, nem todas acessíveis ao leitor mediano, sem tanta erudição quanto ele. Isso, por si só, não deveria ser motivo de crítica negativa ao romance de Mário de Andrade. Afinal, quando um texto é lotado de referências, algumas possibilidades de leitura se abrem. Ou a pessoa lê sem saber ou sem se dar conta dessas alusões, e aí absorve a história de forma mais rasa, mas ainda assim entra em contato com a narrativa proposta pelo autor. Ou a pessoa já conhece muitas das referências, se diverte com essas alusões e vai em busca de procurar saber ou entender as que ainda lhe são desconhecidas, e aí entra em contato com uma versão muito mais aprofundada do romance. Eu entendo que esse texto denso é na verdade um elogio do autor ao leitor, porque o autor confia na capacidade de decodificação desse leitor, que não precisa apreender tudo na primeira leitura, pode se divertir em descobrir mais na segunda vez em que pega o texto.
O uso de referências, de composição de textos densos, de diálogos com outros textos distantes no tempo e no espaço daquele local de publicação da obra é uma tendência do Modernismo, movimento do qual Andrade foi um dos precursores no Brasil.
Sep 27, 2023
1 hr 13 min
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