
“A boa lua” é um dos 30 contos do livro Ânsia Eterna (Garnier, 1903), de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). Este, em especial, põe em evidência o embate geracional ao contar a história do centenário Samuel, carinhosamente conhecido como Velho Samé ou Tio Samé, homem “teimoso em viver”, na visão de sua família. Ele já havia esquecido todos os nomes, os dos filhos, o dos netos, o da falecida esposa e até o dele próprio, mas ainda tinha de cor a sapiência ligada à Terra: a época de plantar, a época de colher. Samé é um ser transcendental e vivencia um acontecimento insólito seguido de uma metáfora profunda com a seiva que persiste na árvore seca, gerando novos ramos. Essa narrativa curta de Julia almeja o drama humano, como boa cientista social que era, e contém o tempero trágico e realista/naturalista, inerente à autora. Ânsia Eterna, contudo, detêm camadas do grotesco e do insólito em suas histórias, talvez para dar conta do desdobramento metafórico que nos permite a interpretação do título do livro: o desejo feminino de igualdade e respeito, território que ela militou tão bem. Boa leitura!
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Jan 12, 2024
31 min

“Meus oito anos” é o mais famoso poema de Casimiro José Marques de Abreu (1839-1860), relançado nesse ano que é só uma criança, para pensar a infância. O lírico-romântico compõe o seu único livro publicado “As Primaveras”, saído em 1859, um ano antes da morte do autor. Ele viveu apenas 21 anos, nasceu e morreu na mesma cidade: Barra de São João, província do Rio de Janeiro. Casimiro de Abreu começou cedo a escrever para jornais, em Lisboa, Portugal, onde foi para estudar. Em seus versos mais notórios o saudosismo da infância é claramente expresso, em especial, por relacionar seus versos à figura da mãe e da irmã. Casimiro tornou-se um dos poetas mais conhecidos do Romantismo, justamente porque tem características na linguagem que o aproximam da fala popular. Encaixa-se na segunda geração, o Romantismo Egótico, que trabalha dualidades como amor e morte, dúvida e ironia, entusiasmo e tédio. Seu legado soma-se ao de outros moços brilhantes, como Manuel Antonio de Almeida e Machado de Assis, seus companheiros de rodas literárias, mas irmana-se ao de poetas adolescentes mortos antes de tocarem a plena juventude. Assim iniciamos a 5ª temporada. Boa leitura!
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Jan 5, 2024
25 min

“Conto de Natal” (1920) é uma história supercomovente da escritora francesa Lucie Delarue-Mardrus (1874-1945), que narra a história de uma pobre mulher falida, com seu pequeno filho, vítima de um casamento violento e enganoso. É véspera de Natal e aos olhos da inocência, espera-se que o tradicional Papai Noel visite o pobre lar. É uma narrativa que comove do princípio ao fim e, apesar de ter mais de cem anos, faz total sentido nos lares atuais. Trazemos um estudo bem diferenciado, inteiramente traduzido por nós, uma vez que as informações biográficas relevantes e confiáveis sobre Lucie Delarue-Mardrus estão disponíveis apenas em língua francesa e inglesa. Famosa do início do século XX , ela nos chega diretamente da Belle Époque (1871-1914), com o legado de ter sobrevivido, por muitos anos, da renda que fez de sua pena. Amava poesia, mas teve que produzir os “romances alimentares”. Começou a publicar aos 34 anos (Marie fille mère, Fasquelle: 1908). Foram 70 obras escritas em 40 anos de carreira. Lucie foi badalada na sociedade parisiense da época, mas hoje é pouco considerada, inclusive por acadêmicos e estudiosos literários. Ela escreveu bastante sobre o amor entre mulheres e amou a várias, embora tenha se casado por 14 anos, com o ilustre tradutor de As Mil e Uma Noites, Joseph-Charles Mardrus, de quem herdou o sobrenome. Boa leitura!
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Dec 22, 2023
45 min

“Cancioneiro" é o título do livro de poesias reunidas de Fernando Pessoa (1888-1935), escritas e publicadas entre 1902 e 1935, ano da morte do autor. “Cancioneiro” é encontrado em sua Obra Poética Completa (volume único). Foi desse livro que fizemos uma seleção especial de poemas de Natal ou de temáticas ligadas à data, exatamente na ordem de publicação. É uma contemplação de vinte anos de produções poéticas do ciclo pessoano: 14. "Canção" (p.130), 39 a 57. "Natal" (p.131 a 189), 63. "Natal… na província neva" (p.196), 76. "Chove. É dia de Natal" (p.209) e 124. "Quando era criança" (p. 263). É a primeira vez que temos uma produção essencialmente de Fernando Pessoa, e não de um de seus heterônimos. Os versos citam expressamente o Natal ou perpassam os sinos e seus símbolos, a eterna família, a vida e os pássaros, o tempo e o clima, incluindo o vento e o frio, as músicas e a infância, o dormir, as canções de ninar, o sonhar, a noite e suas velas, o pastor e suas árias, o canto, o sol e o Senhor!, dito assim, em vocativo. À Pessoa, o Natal está mais ligado à tristeza e à solidão, que à alegria e à confraternização. Relaciona-se com algo que ele não consegue tocar, com uma saudade vã, mas também com a contemplação e a esperança, inerente à infância. Boa leitura!
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Dec 15, 2023
34 min

“O Suave Milagre” (1898) é um conto de Natal de Eça de Queirós (1845-1900), que parece ter saído das Sagradas Escrituras. É uma comovente narrativa que leva os olhos para a humildade, a pobreza e a pureza dos marginalizados. Foi publicado originalmente em 1898 na Revista Moderna. Nesse e noutros contos da terceira fase do autor, considera-se que Eça tenha alcançado seu apogeu de estilista, em detrimento da estrutura narrativa. A terceira palavra do conto é “Jesus”, retomado inúmeras vezes na história como "Rabi", que, por sua vez, é o chefe religioso de uma comunidade judaica; ou grande estudioso ou mestre da religião judaica. A etimologia da palavra é o latim: “rabbi" é mestre, doutor, do hebraico rabbi, meu mestre. Logo, espalha-se notícias de todos os seus milagres: cura da lepra, exorcismo de demônios, multiplicação de pães e até, a ressurreição. O texto traz notícias de homens poderosos e ricos que empenham todo o seu exército para encontrar o novo profeta, com o intuito de lhe resolver seus problemas com a sua potência, em troca de riquezas. Toda a Galileia é percorrida em vão. Em paradoxo, o texto apresenta os pobres, em especial uma viúva com seu filho doente e faminto. E assim, Eça de Queirós constrói uma paródia, que desfecha, ao que tudo indica, na véspera de Natal. Boa leitura!
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Dec 8, 2023
1 hr 3 min

“Vanka” é uma história comovente do menino de 9 anos, órfão, que está sofrendo nas mãos de um patrão malvado e resolve escrever uma carta emocionada. É véspera de Natal. Daí começa-se a desenrolar a história de sua família, de um tempo no qual parece que a infância ainda não havia sido inventada. A brancura da neve e o frio do inverno russo, natural a essa época de festas, é muito marcante no gozo da desgraça ou de qualquer sorte do pobre garoto. Ele mal come, quase não se aquece, sofre horrores e, em sua carta, faz promessas de futuro, se puder receber um pouco de carinho, para amenizar seus dias terríveis. É o seu desejo de Natal, tão comovente, ideal para iniciarmos as reflexões desse último mês do ano. Um texto no qual não há "humoresque", sua marca registrada, mas sim a brilhante característica de trazer o plano espiritual para o plano da vida cotidiana, uma marca do inimitável mundo tchekhoviano. Tchekhov foi médico, dramaturgo, novelista e contista, representante do Realismo Russo. Seus protagonistas são pessoas comuns, normalmente pobres, vivendo situações cotidianas. Ele abordava a condição humana e as relações sociais, escrevendo sobre uma sociedade apodrecida, com: hipocrisia, corrupção, esterilidade, lisonja, prepotência, sabujice, entre outros. "Olhai para as criancinhas”, é o que ele grita, nas entrelinhas dessa narrativa. Boa leitura!
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Dec 1, 2023
41 min

“Quem sou eu?” é uma das poesias mais famosas de Luiz da Gama (1830-1882), no livro Primeiras Trovas Burlescas de Getulino (1859), que contém 40 poemas. Entre parênteses vem: “à Bodarrada”, o que remete à comparação com o bode, mas conclui naturalmente que há bodes de todas as cores, brancos, pretos, cinzas, ricos e pobres. Getulino foi um de seus pseudônimos, junto com Afro e Barrabaz. O poema é uma resposta ao preconceito de cor da sociedade brasileira. “Quem sou eu?” tem 138 versos, é todo em redondilha maior e foi escrito em resposta ao apelido que os intelectuais da época tentaram lhe impor. Bode era termo usado de forma depreciativa para designar os negros mais claros. Luiz da Gama fez uma total diferença na vida de centenas de negros, uma vez que estudou as leis e por eles agia como advogado. Impedido de cursar o curso regular de Direito, por ser preto, fora proclamado "rábula", advogado sem formação especial. E assim foi voz e libertou mais de quinhentos escravos. Ele entrou pra história como o primeiro advogado preto, no século XIX e foi pioneiro na imprensa paulista. Boa leitura!
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Nov 24, 2023
41 min

Broqueis (1893) é um livro de poemas de Cruz e Souza (1861-1898) que, com o volume de prosa lírica Missal, são considerados um marco da estética simbolista na poesia brasileira. Neste episódio, trazemos a segunda metade do livro. São 27 poemas, dos 54 que compõem Broquéis. Completamos o livro, com: "Deusa Serena", "Tulipa real", "Apparição", "Vesperal", "Dança do ventre", "Foederis Arca", "Tuberculosa", "Flor do mar", "Dilacerações", "Regenerada", "Sentimentos Carnaes", "Crystaes", "Symphonias do Occaso", "Rebellado", "Musica Mysteriosa", "Serpente de Cabellos", "Post Mortem", "Alda", "Acrobata da dor", "Angelus…", "Lembranças apagadas", "Supremo Desejo", "Sonata", "Magestade Cahida", "Incensos", "Luz dolorosa…", e "Tortura eterna”. Cruz e Souza é um dos precursores da literatura afro-brasileira e renovou a expressão poética em língua portuguesa no século XIX. Seus versos apresentam uma obsessão pela brancura, uma espécie de pureza idealizada. Catarinense, nasceu e cresceu num meio extremamente hostil ao preto, em província do sul do país para onde se dirigiram levas de imigrantes europeus brancos. Seu trabalho literário é inovador e fortemente contrário ao discurso conservador da época.
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Nov 17, 2023
55 min

“Clara dos Anjos” (1920) é o conto homônimo ao romance clássico de Lima Barreto (1881-1922). O conto que deu o embrião a esse emblemático romance que denuncia não só a condição de inferioridade pela cor de pele, como pela condição de ser mulher, no início no século passado. No conto, o plot de Clara é o mesmo. Mulata apaixonada e ingênua, moradora do subúrbio do Rio de Janeiro, que é seduzida por um malandro, o tipo “vagabundo doméstico”, mas trovador. A partir da sua “modinha”, Julio Costa (no conto) e Cassi Jones (no romance), vai seduzindo a moça, até roubar o que lhe era mais precioso, a partir do namoro na janela. Clara tem a pele pigmentada, mas é o sinônimo em si mesmo de brancura, criada meticulosamente pelos pais, mais bem educada e escolarizada que o rapaz torpe. Além de tudo, é “dos Anjos”, duplamente, no sentido etimológico, um ser (que vai buscar ser) branco. Mas a ela é reservado o pior destino. Lima Barreto transpõe para a personagem o sofrimento de cor que ele mesmo sentia. O autor morreu em 1º de novembro de 1922, dias após ter apresentado o primeiro capítulo de Clara dos Anjos - cuja escritura iniciou em 1904, na época ainda denominado “O Carteiro”, centrado no personagem do pai da mulata Clara. O romance inteiro sairia apenas em 1948. Boa leitura!
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Nov 10, 2023
47 min

“Confidência” (1865) é uma poesia de 108 versos de Castro Alves (1847-1871) que está no livro Os Escravos (1883), publicado postumamente. Foi escrito no mesmo ano de “O século”, que já foi episódio do LdO, contudo “Confidência” já contem a mesma estrutura poética que “Vozes D’África” (1868), publicado três anos depois: dois versos decassílabos (AA) , um verso hexassílabo(B), dois versos decassílabos (CC), mais um verso hexassílabo (B). Testada a estrutura, eles só diferem no número de estrofes: “Confidência" tem 18 e “Vozes D’África”, 19 estrofes, chegando a 114 versos. Em “Confidência”, o eu-lírico interlocuta com Maria. Enquanto ela enxerga que na alma tem amor e nos vergéis há flores, o narrador estabelece um paradoxo, referindo-se ao negro abutre que esvoaça, ao eco do grito que soluça e questiona: “Liberdade, quando enfim hás de vir?” O poema já ensaia suas críticas à Igreja: “amolando nas páginas da Bíblia o cutelo do algoz”, o que é potencializado nos poemas que viriam depois. Boa leitura!
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Nov 3, 2023
33 min
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