Estado da Arte
Estado da Arte
Estado da Arte
O Estado da Arte traz à pauta temas consagrados pela tradição humanista.
O Império Otomano
Quando o Império Otomano colapsou na Grande Guerra ele cobria só um pedaço da Turquia, era vilipendiado como o “Homem doente da Europa” e recriminado por atrocidades contra minorias armênias. Mas em seu apogeu, no reino de Suleiman o Magnífico, no século XVI, era a maior potência do Oriente Médio, África e Europa, senão do mundo, imperando sobre Atenas, Jerusalém, Cairo, Cartago, Budapeste, Damasco, Babilônia, e as cidades sagradas de Meca e Medina. Três séculos antes, eram só uma tribo nômade turca da Anatólia. Sobre os escombros bizantinos deixados por hordas de mongóis e cruzados, o clã de Osman dominou o ponto nevrálgico entre a Europa e a Ásia, Constantinopla, consagrada como a capital Istanbul, e, por meio de conquistas militares, diplomáticas e matrimoniais, se expandiu do Egito à Hungria, do Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico, dos palácios de Bagdá às portas de Viena. Foi um dos maiores, mais longevos e esplêndidos impérios multiétnicos e multi-religiosos, só comparável aos de Roma e Bizâncio, aos impérios cristãos dos Habsburgo e Romanov, ou aos islâmicos dos árabes abássidas, iranianos safávidas ou indianos mugal. Os sultões viam-se como herdeiros de Alexandre e César, e eram venerados pelos sunitas como califas, os sucessores de Maomé. Mas seu islamismo absorve elementos do xamanismo, budismo e cristianismo. Enquanto católicos e protestantes perseguiam judeus, muçulmanos e uns aos outros, sob os otomanos as crenças e propriedades de xiitas, judeus e cristãos eram respeitadas. Nos haréns não havia preconceitos étnicos: búlgaras, sérvias, albanesas, húngaras, russas, mongóis e árabes eram recebidas de braços abertos e seus filhos eram herdeiros dos sultões. A elite militar dos janíçaros era recrutada entre crianças cristãs gregas, armênias e eslavas educadas no califado. Suas tropas e frotas eram imbatíveis em disciplina e engenho militar. Por séculos, foram os maiores adversários dos persas xiitas, e responderam pelas maiores ameaças do mundo islâmico à cristandade, mas também pelas melhores alianças. O próprio Suleiman, que personifica o estereótipo do “despotismo turco”, também simboliza os sonhos do Ocidente pelo “luxo oriental”. “O Magnífico” foi um nome dado pelos europeus. Para os muçulmanos ele é “O Legislador”. Os sultões e vizires estão entre os maiores mecenas de todos os tempos. Suas mesquitas abobadadas espelhadas nas basílicas bizantinas são um monumento à glória de Alá jamais igualado na arquitetura islâmica. Como eles ergueram seu império? Como ele desmoronou? Qual o seu legado para a Turquia, suas antigas províncias, o Islã e o mundo contemporâneo? CONVIDADOS Heitor Loureiro: Doutor em História pela Universidade Estadual Paulista e pesquisador do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio. Karabekir Akkoyunlu: Professor de história e política comparada da Escola de Relações Internacionais da FGV, e coautor de Guardianship and Democracy in Iran and Turkey. Monique Sochaczewski:  Professora do IDP, Cofundadora do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre o Oriente Médio e autora de “Do Rio a Istambul: Contrastes e Conexões entre o Brasil e o Império Otomano”.   Apresentação: Marcelo Consentino. Produção técnica: Compasso Coolab. Ilustração: Santa Sofia e a Mesquita Azul, em Istanbul (Miwok, Flickr).
Feb 16, 2022
59 min
Nanotecnologia
No século XVII, o místico, filósofo e cientista Blaise Pascal dizia que o ser humano é uma criatura irremediavelmente perdida entre os dois extremos do infinitamente grande e do infinitamente pequeno. Mas as últimas gerações de cientistas parecem infinitamente mais próximas do pequeno. Já em 1959, o físico laureado com o Nobel, Richard Feynman, previu a miniaturização extrema da tecnologia até a manipulação de moléculas e átomos como blocos de construção. Desde os anos 80, invenções e descobertas na fabricação de nano-objetos têm atestado esta visão. Em poucas décadas a nanotecnologia tornou-se um mercado trilionário, que move universidades, corporações, militares e governos em travessias multidisciplinares entre as fronteiras da química, biologia molecular, ciência dos materiais e física da matéria condensada para compreender a alterar propriedades inesperadas. Desde 1999, há um crescimento anual da ordem de 15% de nanodispositivos no mercado. Alguns pensam que a nanotecnologia trará a próxima revolução tecnológica, após a revolução industrial e a revolução digital, com efeito combinando e amplificando ambas. Desde já, materiais compostos utilizam elementos em nano-escala para tornar todo tipo de coisa melhor, mais forte e mais rápida – de tecidos e cosméticos a telas de TV e painéis solares. Estruturas ultra-leves para aeronaves e microchips com hiper-memória já estão no horizonte. Provavelmente não há nenhum aspecto da vida humana que não será em algum momento afetado. Enquanto a nanotecnologia avança para cobrir a lacuna entre a fantasia e a realidade, os visionários a veem como uma panaceia capaz de eliminar a poluição nos países ricos e a fome nos países pobres, reconstruir plantas e animais extintos, e diagnosticar e curar todos os nossos males. Fala-se até em nano-robôs que “viverão” em nossos corpos, eliminarão patógenos, reverterão traumas e turbinarão nossas capacidades físicas e mentais. Para os céticos isso nunca será mais que um delírio futurista. Os alarmistas enxergam o próximo passo na guerra química e biológica, com nano-robôs fugindo aos laboratórios para evoluírem como seres sensíveis que escaparão ao controle da humanidade e finalmente a substituirão. Mas o que realmente acontece quando o ser humano se torna capaz de redesenhar e reconstruir com precisão atômica as partículas que compõem o tecido da existência? Quais as conquistas da nanotecnologia hoje? Quais os desafios para o futuro? E quais os dilemas éticos e regulatórios envolvidos nessa aventura?  Convidados Ado Jorio de Vasconcelos: professor de física da Universidade de Minas Gerais. Aldo José Gorgatti Zarbin: professor de Química da Universidade Federal do Paraná. Ernesto Joselevich: professor do Departamento de Materiais e Interfaces Instituto de Ciência Weizmann em Israel. Apresentação: Marcelo Consentino. Produção técnica: Compasso Coolab. Ilustração: Nanopartícula de vidro suspensa em uma cavidade ótica (Wikimedia Commons)
Feb 9, 2022
59 min
Reprodutibilidade científica
Como os teólogos na Idade Média, os cientistas são a suprema autoridade intelectual no nosso tempo. Veja a confiança que inspiram fórmulas como “cientificamente comprovado” ou “cientistas demonstram que…”. Nossa esperança pelo progresso vive da fé na ciência. E a pedra angular da ciência é a reprodutibilidade. Se o resultado de um experimento é real e robusto, qualquer pesquisador deve ser capaz de obtê-lo reproduzindo os mesmos procedimentos. Mas em 2005 um médico e cientista constatou: a maioria dos resultados reproduzidos em pesquisas são falsos. No artigo que caiu como uma bomba na comunidade científica, John Ioannidis demonstra que a maioria das publicações não atinge padrões mínimos de evidência. Desde que a chamada “Crise da Reprodutibilidade” foi detonada, os cientistas têm aprimorado a verificação de evidências (ou de sua ausência), naquilo que alguns chamam “Metaciência”. Mas quanto ainda podemos confiar nos cientistas? Até onde seus vieses alteram a produção e a reprodução de seus dados? Será verdade, como disse um filósofo, que não existem fatos, só interpretações? A bem da verdade, não existe a Ciência, só as ciências, cada qual com seus objetos e métodos. A crise não é igualmente crítica para as ciências humanas, as biológicas e as físicas. A própria crítica hiperbólica de Ioannidis se referia, mais restritamente, às pesquisas médicas, e significa, mais rigorosamente, não que os resultados são majoritariamente “falsos”, mas que “não foram comprovados” ou na pior das hipóteses “não podem ser”. Como atividade humana, a ciência é por definição falível, falsificável, deturpável a ponto de se tornar um culto. Mas mesmo que um certo obscurantismo ou um ceticismo extremado apontem as inconsistências, fraquezas e vícios dos cientistas para desacreditá-los, podemos confiar que, junto com filósofos ou teólogos, cada qual com seus objetos e métodos, eles aproximam a humanidade da verdade. Se, como disse o filósofo Karl Popper, “acontecimentos singulares não reprodutíveis não têm importância para a ciência” – e nossas experiências mais singulares da beleza, do bem, da verdade, são por definição irrepetíveis, únicas –, a boa ciência sabe que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia e o coração tem razões que a razão desconhece. Mas ela ainda é a mais formidável máquina de verificar fatos, revelar as leis que os regem, e alavancar inovações tecnológicas. É razoável e demonstravelmente racional confiar o progresso humano à vigilância dos cientistas. Mas quem vigia os vigilantes? E como vigia? CONVIDADOS Marcus Vinícius Baldo: professor do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo. Maria Elice de Brzezinski Prestes: professora do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Olavo Amaral: professor do Instituto de Bioquímica Médica da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Referências * “Sobre a integridade ética da pesquisa” (2011), de L.H.L. Santos. Boas práticas científicas. Fapesp. * “Experimento”, de S. French. Em Ciência: conceitos-chave em filosofia. * “Experimento”, de Ian Hacking. Em Representar e intervir. * “Observação e Interpretação”, de N.R. Hanson. Em Filosofia da Ciência, ed. S. Morgenbesser. * On communicating science and uncertainty: A podcast with John Ioannidis. Stanford Medicine. * Crombie, A. C. Robert Grosseteste and the Origins of Experimental Science, 1100-1700. Clarendon Press, 1953 * Artigos de divulgação * “Confiabilidade em crise” * “The truth wears...
Dec 15, 2021
59 min
As provas da existência de Deus
Na mesma época em que o louco da parábola de Nietzsche proclamava que “Deus está morto”, o filósofo russo Vladimir Soloviov era indagado após uma conferência: “– Mas o senhor acredita realmente em Deus?” “– Senhor, eu só acredito em Deus”, respondeu, sugerindo que só um ser supremo absolutamente bom é digno da nossa absoluta confiança. Hoje, pelo menos 90% da população mundial se diz religiosa ou espiritualizada, 70% acredita na existência de Deus. Mas podem prová-la? Entre os profissionais da argumentação racional, os filósofos acadêmicos, estima-se que 7 em 10 sejam descrentes. Com boas razões: as ciências parecem explicar a mecânica do universo sem necessidade de Deus; um ateu pode ser tão razoável e decente quanto o melhor dos crentes, e mesmo profundamente religioso e até santo, como alguns budistas. De resto, como Deus pode tolerar o mal, o sofrimento de crianças inocentes, para não falar da crueldade eterna do inferno? Na pior das hipóteses, as religiões parecem ser tiranias obscurantistas adoradoras de um ditador cósmico; na melhor, o conforto de um placebo superlativo – em todo caso, uma ilusão sem futuro. Por outro lado, se nada no universo vem do nada, como o próprio universo pode vir do nada? Que da matéria bruta surjam seres vivos, capazes de amar e se reproduzir; ou que da brutalidade e inocência do mundo animal surjam mentes racionais, capazes de compreender o universo e agir com suprema magnanimidade – mas também com perversidade destrutiva –, mesmo para com todas as criaturas, parecem eventos tão improváveis que só podem ser definidos como um mistério, quando não um milagre. E de onde viria o nosso apetite pela beleza infinita, senão de um ser infinitamente belo? Ainda que as leis morais pareçam infinitamente variáveis, de onde viria a intuição universal de uma lei moral, senão de um supremo legislador? E que dizer da experiência pessoal da maioria da humanidade hoje e em todos os tempos? O testemunho de filósofos como Confúcio, Platão, Aristóteles, Descartes ou Kant; de cientistas como Galileu, Newton ou Einstein; de artistas como Michelangelo, Bach, Dostoievski; ou de profetas, como Moisés e Maomé, para não falar do chamado Filho de Deus e sua mãe, não será, senão uma “prova” racional da existência de Deus, um indício de que a crença nele é perfeitamente razoável? E não será possível, como disse Pascal, que Deus queira aparecer abertamente àqueles que o buscam com todo o coração, e se esconder daqueles que o evitam com todo o coração? Entre tantas incertezas, uma coisa é certa: a questão sobre a existência de Deus é aquela sobre a qual não se pode conceber nenhuma maior. Afinal, a resposta é a única que muda, bastante literalmente, tudo. CONVIDADOS Agnaldo Portugal: professor de filosofia da religião e filosofia da ciência da Universidade de Brasília. Fabio Bertato: pesquisador do Centro de Lógica, Epistemologia e História da Ciência da Unicamp. Roberto Covolan: vice-presidente da Associação Brasileira de Cristãos na Ciência. Referências * The Existence of God. A reader, ed. John Hick. * Two Dozen (or so) Theistic Arguments, de Alvin Plantinga. * God in Proof. The story of a search from ancients to the internet, de Nathan Schneider. * The Existence of God, de Richard Swinburne. * The Blackwell companion to Natural Theology, ed. W.L. Craig e J.P. Moreland. * “The Existence of God”, Catholic Encyclopedia. * Dieu existe, de Fréderic Guillaud. * La Question philosophique de l’existence de Dieu, de Bernard Sève. * Comment se pose aujourd’hui le probleme de l’existence de Dieu, de Claude Tresmontant. * L’existence de Dieu: Les arguments de l’agnosticisme de l’athéisme et du théisme, de Philippe Thiry. * Existiert Gott? De Hans Küng. * The Encyclopedia of World Religions, org. R.S. Ellwood e G.D. Alles.
Dec 8, 2021
59 min
Romances de Formação
Embora seja apenas um subgênero literário, o Romance de Formação é uma das expressões artísticas mais universais e familiares. Quase nenhum leitor viveu nas paisagens bucólicas da poesia pastoril, ou sobreviveu às aventuras das epopeias ou aos dramas letais das tragédias – e qualquer um evita ser protagonista das farsas cômicas – , mas todo mundo já foi, ou é, jovem. Todos provaram as primeiras emoções do amor e do sexo; tiveram dúvidas sobre seu destino pessoal, sua vocação profissional, seu papel no teatro social e político; se deslumbraram com visões metafísicas, éticas e estéticas, e se frustraram com suas incongruências. Todo adulto se formou quando jovem e forma os jovens de hoje. Para o filósofo Wilhelm Dilthey, um dos criadores do termo Bildungsroman, suas narrativas “apresentam o jovem de seu tempo à medida em que adentra a vida em alegre ignorância, buscando almas afins, provando a amizade e o amor, enquanto luta com as duras realidades do mundo, e assim, em multifacetados encontros com a vida, amadurece, encontra-se a si mesmo, e reconhece sua missão no universo”. Em sentido amplo essa jornada arquetípica já fora vivida por jovens antigos como o babilônico Gilgamesh, passando pelos bíblicos José, Moisés ou Davi, até a odisseia do grego Telêmaco ou a do bárbaro cristão Percival. Em senso estrito, o romance de formação nasce em meio às concepções de cultura e educação iluministas, especificamente na Alemanha com os prototípicos Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister, de Goethe. Se, como disse Marx, a modernidade é uma “revolução permanente”, a juventude, nas palavras de Franco Moretti, é a “essência da modernidade, o sinal de um mundo que busca o seu sentido no futuro antes que no passado”. E o Romance de Formação, como narrativa da insatisfação e mobilidade interior da juventude, é a sua forma simbólica. Desde o seu despertar, no romantismo, passando pelo seu amadurecimento, no realismo, até suas sucessivas reformas, deformações e transformações pelos movimentos modernistas, a cultura moderna sempre se viu refletida nos romances de formação. Não à toa quase todo grande romancista – de Dickens, Stendhal e Balzac, passando por Flaubert, Jane Austen, Dostoiévski, Mark Twain até Thomas Mann, J.D. Sallinger ou Philip Roth – experimentou de algum modo o gênero. O que esses romances têm a dizer na era pós-moderna? Como eles refletem os jovens de hoje e formam os de amanhã? Convidados Daniel Bonomo: doutor em literatura alemã e professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais. Marcus Mazzari: professor de literatura comparada da Universidade de São Paulo e organizador do livro Romances de Formação: caminhos e descaminhos do herói. Rogério Puga: professor de literatura da Universidade Nova de Lisboa e autor de O Bildungsroman. Referências * Romance de formação – Caminhos e descaminhos do herói, org. C. Marks e M. Mazzari. * O Bildungsroman – (Romance de Formação) – Perspectivas, de Rogério Miguel Puga. * O cânone mínimo. O Bildungsroman na história da literature, de Wilma P. Maas. * O romance de formação, de Franco Moretti. * Romantic Prose Fiction: A comparative history of Literatures in European Languages, ed. G. Gillespie, M. Engel, B. Dieterle. * The Bildungsroman from Goethe to Santayana. * Change and Continuity: The Bildungsroman in English, de Annike T. Iversen. * Einführung in den Bildungsroman, de Ortrud Gutjahr. * Der deutsche Bildungsroman, de Rolf Selbmann. * Der Roman des Lebens– Die Aktualität der Bildung und ihre Geschichte, de Wilhelm Voßkamp. * Encyclopedia of Themes in Literature, ed. J. McClinton-Temple. * The Concise Oxford Dictionary of Literary Therms, ed. Chris Baldick. * The Routledge Dictionary of Literary Terms, org. P. Childs e R. Fowler. * The Encyclopedia of the Novel, ed. P.M. Logan.
Dec 1, 2021
58 min
A Rota da Seda
O nome “Rota da Seda” é uma convenção historiográfica do século XIX para designar o fluxo comercial ancestral da Eurásia. Na verdade, a seda era uma mercadoria de várias, e não houve uma rota, mas inúmeras, ao norte e ao sul, através das estepes, desertos, montanhas e mares, conectando desde a costa chinesa do Pacífico às costas atlânticas da Europa e da África; da Escandinávia ao Oceano Índico. Desde os tempos neolíticos até se consolidarem há 2000 anos – muito antes das navegações transatlânticas descobrirem um novo Mundo e a aviação conectar todas as regiões do globo – as rotas formaram a principal artéria intercontinental do planeta, por onde trafegavam mercadores, viajantes, missionários e peregrinos permutando mercadorias e ideias, mas também doenças e violência. Através de suas veias e vasos capilares o Oriente e o Ocidente trocaram entre si o melhor de sua comida, indústria e arte, nutrindo os fluxos de ascensão e queda de grandes impérios gregos, iranianos, árabes ou turcos. Nelas os povos bárbaros e exóticos da Europa conheceram as civilizações mais veneráveis da Ásia, e receberam delas tecnologias revolucionárias, como a pólvora ou o papel. Elas canalizaram as conquistas de Alexandre o Grande ou Gengis Khan e as aventuras de Marco Polo e outros comerciantes. Através delas floresceram cidades legendárias, como Persépolis, Samarkand ou Xanadu; os mongóis, e, em nosso tempo, os russos, ergueram os mais vastos impérios do mundo; os califas muçulmanos e os imperadores chineses se bateram; as antigas religiões do Oriente Médio, como o judaísmo, o zoroastrismo, o maniqueísmo e as primeiras seitas cristãs confluíram para a Ásia profunda, e o budismo e o Islã disseminaram-se ao norte, sul, leste e oeste tornando-se religiões mundiais. Nelas, uma das duas civilizações mais antigas do mundo e uma das duas mais poderosas de nosso tempo, a China, se encontrou com aquela que foi comparativamente a mais poderosa de todos os tempos, Roma. Após as navegações transatlânticas, as rotas perderam muito de seu apelo, mas ainda catalisaram maravilhas modernas como o Canal de Suez ou a Ferrovia Trans-Eurasiana. E em nosso tempo a China planeja investimentos trilionários na “Nova Rota da Seda” que impactarão diretamente as economias da Ásia, Europa e África e plasmarão a nova ordem geopolítica global. Ao fim, por mais convencional que seja, o nome Rota da Seda não é ruim: a “rota” é uma metáfora para o eterno percurso do sol crescente ao sol poente e vice-versa. E para o comércio internacional e seus bens – o ouro, o luxo, a aventura, o poder – nada simboliza melhor que a “seda” a cor, a luz, a leveza e a fugacidade que tecem estes sonhos. CONVIDADOS André Bueno: professor de história e filosofia chinesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Daniel Veras: pesquisador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Evandro Menezes de Carvalho: pesquisador do Núcleo de Estudos Brasil-China da Fundação Getúlio Vargas. REFERÊNCIAS * Roma e o Extremo Oriente, de Raoul McLaughlin. * O Coração do Mundo, de Peter Frankopan. * “The Silk Road”, entrevista para o programa In Our Time, Radio BBC 4. * The Silk Road. A New History, de Valerie Hansen. * The Silk Road Encyclopedia, ed. Jeong Su-Il. * Empires of the Silk Road. A History of Central Eurasia from the Bronze Age to the Present, de Christopher I. Beckwith. * History of Civilizations of Central Asia, ed. János Harmatta. * The Silk Road. A Very Short Introduction, de James A. Millward. * The Silk Road in World History, de Xinru Liu. Apresentação: Marcelo Consentino Produção técnica: Compasso Coolab. Ilustração: Caravana de Marco Polo, do Atlas Catalão de Carlos V,
Nov 24, 2021
59 min
A Bhagavad Gita
Há quem diga que o Mahabharata é o maior poema do mundo. Em certo sentido isso é indisputável: é o mais longo. O conflito épico entre os clãs irmãos Pandava e Kurava é sete vezes maior que a Ilíada e a Odisseia juntas. E no clímax de décadas de confronto, no campo da batalha decisiva, surge aquela que muitos consideram a mais preciosa joia da Índia para o mundo: a Canção de Deus, Bhagavad Gita. Em certo sentido isso também é indisputável. É a obra mais traduzida, comentada e amada da literatura religiosa indiana. Para Wilhelm von Humboldt “é o mais belo, talvez o único verdadeiro canto filosófico em qualquer língua, possivelmente a coisa mais profunda e elevada que o mundo tem a mostrar”. À frente do exército de seus irmãos, em frente ao exército de seus primos, o príncipe Arjuna lança por terra seu arco e flechas e colapsa sob o peso de um dilema: conquistar um reino sacrificando seus familiares, ou sacrificar seu dever cívico renunciando ao mundo. “Você tem de lutar!”, diz seu companheiro Krishna. Como um guru, ele instrui Arjuna sobre a natureza da alma, as dimensões da realidade e os caminhos da libertação, culminando na epifania mística em que se revela como o Deus supremo. A Bhagavad Gita é um esforço extraordinário para harmonizar tradições diversas e por vezes discordantes: os valores bramânicos e o código dos guerreiros; o panteísmo antigo e a religiosidade teísta; a ascese e a ação. Não à toa a Gita já foi chamada o “Novo Testamento hindu” e Krishna, o &#8220;Cristo indiano&#8221;. O Deus da Bhagavad Gita é certamente próximo a Yahweh, criador do Mundo e senhor da História. O poema é rico em paradoxos éticos e metafísicos que refletem as ambivalências da vida, mas, como no Evangelho, a mensagem final é cristalina: “Refugie-se em mim, eu o libertarei de todos os males, não tema”, diz Deus. “Aquele que medita em mim e me imita, eu elevo sobre o oceano da morte”. Mas como imitar um Deus que está em todas as coisas e além delas; que é criativo e destrutivo; uma pessoa e o Ser absoluto? Em busca de respostas, os gurus e filósofos moldaram indelevelmente a espiritualidade hindu. No século XX, o poema foi invocado por nacionalistas indianos para conclamar ao combate armado pela independência. Mas foi talvez Ghandi, o grande artífice da independência pela não-violência, quem compreendeu o seu verdadeiro chamado: a batalha interior pelo triunfo sobre o egoísmo. CONVIDADOS Dilip Loundo: Professor de Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Uma introdução ao hinduísmo. Lúcio Valera: doutor em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora e autor de Introdução ao Sânscrito. Rubens Turci: Doutor em Estudos Religiosos pela McMaster University e autor de Shraddhà in the Bhagavad-Gità: A Magnetic Needle Pointing Toward Brahmanirvana. REFERÊNCIAS * História das Crenças e das Ideias Religiosas, de Mircea Eliade. * The Encyclopedia of World Religions, org. R.S. Ellwood e G.D. Alles. * Britannica Encyclopedia of World Religions, org. W. Doniger. * Religions of the World. A comprehensive Encyclopedia of Beliefs and Practices, org. J.G. Melton e M. Baumann. * Encyclopedia of Religion, org. Lindsay Jones. * A History of Indian Philosophy, de Surendranath Dasgupta. * A survey of Hinduism, de Klaus K. Klostermaier. * An introduction to Hinduism, de Gavin Flood. * Hinduism. A Very Short Introduction, de Kim Knott. * Encyclopedia of Hinduism, de C.A. Jones e J.D. Ryan. * A History of Indian Literature, de T. Goudriaan e S. Gupta. * A History of Sanskrit Literature, ed. S.N. Dasgupta. * A History of Indian Literature, de Jan Gonda. * History of Indian Literature, de M. Winternitz. * History of Classical Sanskrit Literature, de M. Krishnamachariar. Apresentação: Marcelo Consentino Produção técnica: <a href="http://compasso.
Nov 10, 2021
57 min
Música no Século das Luzes
O século XVIII se notabilizou como um período de intensa agitação intelectual e social, fruto da confiança ilimitada no poder da razão humana celebrada pelo chamado Iluminismo. Da física newtoniana à máquina a vapor, a cada dia uma nova descoberta científica prometia ampliar virtualmente ao infinito nosso conhecimento e domínio sobre a natureza. E enquanto a vida aristocrática atingia um zênite de requinte e sofisticação nas cortes absolutistas, nos burgos filósofos e reformadores sociais disseminavam as ideias igualitárias que iriam implodir o Antigo Regime durante a Revolução Francesa e a Independência Norte-americana. Mas do fundo de toda essa fúria a cultura da época extrairia uma sonoridade singularmente harmônica, e, sendo ou não adequado o título habitual de a Era da Razão, é também plausível denominar esse período, talvez como nenhum outro antes ou depois, o Século da Música. Bach, Handel, Vivaldi, Mozart, Beethoven são só alguns dos nomes arqui-conhecidos cuja presença massiva nas salas de concerto e estúdios fonográficos do mundo inteiro só faz aumentar ano a ano, e que, compondo na época da invenção do piano, da consolidação da sinfonia e da popularização da ópera, definiriam aquela que hoje reconhecemos como a música “clássica” por excelência. Mas quem foram esses homens? O que pensavam sobre a música? E quais as suas motivações ao compor? Acaso, como declararia posteriormente o escritor Ernst Hoffmann, estariam dominados por um “anseio ardente e insaciável” de “ultrapassar os aspectos comuns da vida” e “atingir na terra a promessa celestial que repousa em nossos corações, o desejo de infinito que nos liga ao mundo superior” ou, ao contrário, como dizia à época Joseph Haydn referindo-se às sua próprias composições, desejavam somente que “os cansados, os fatigados e os preocupados com negócios pudessem gozar de alguns momentos de consolo e repouso”? CONVIDADOS Mário Videira, coordenador do curso de pós-graduação em música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e autor de O Romantismo e o Belo Musical. Leandro Oliveira, mestre em musicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, idealizador e professor do projeto “Falando de Música” da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo. Monica Lucas, chefe do departamento de música da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, musicista e professora de história da música. REFERÊNCIAS * Breve História da Música (History of Music) de Roy Bennett (Ed. Zahar). * Music in the Seventeenth and Eighteenth Centuries de Richard Taruskin (Oxford University Press). * História da Música Ocidental (A History of Western Music) de Donald J. Grout e Claude V. Palisca (Ed. Gradiva). * O Livro de Ouro da História da Música de Otto Maria Carpeaux (Ediouro). * O Romantismo e o Belo Musical de Mário Videira (Unesp). * Barroco, Neobarroco e Outras Ruínas de João Adolfo Hansen. * Mozart &#8211; Sociologia de um Gênio (Mozart &#8211; The Sociology of a Genius) de Norbert Elias (Ed. Zahar). * Dicionário Groves de Música (Groves Dictionary of Music and Musicians) organizado por Stanley Sadie (Ed. Zahar). * A History of Musical Style de Richard L. Crocker (Dover Music). * The Classical Style de Charles Rosen (W.W. Norton). Produção e apresentação: Marcelo Consentino. Produção técnica: Ariel Henrique e Julian Ludwig. Ilustração: Concerto para flauta de Frederico o Grande em Sanssouci. Adolph von Menzel (c. 1850) &nbsp; 7 de outubro de 2014
Nov 2, 2021
45 min
Taoísmo
Elemento comum à toda espiritualidade chinesa, o Tao significa “caminho”, mas para o taoísmo é também a Verdade e a Vida. A mais elusiva das tradições espirituais mundiais, o taoísmo compreende muitas subtradições, seitas religiosas e escolas filosóficas unidas por uma cosmologia similar e um objetivo comum de união com o Tao, que toma a forma de uma busca ou por imortalidade física ou por transcendência mística ou ambas. Sobre o seu mítico fundador, Lao Tzu, abundam anedotas hagiográficas, mas além disso não se sabe nada, nem sequer se existiu ou se escreveu o Tao Te Ching, o livro chinês mais lido, publicado e comentado – de fato, o segundo livro mais traduzido do mundo, depois da Bíblia. Apesar da popularidade, essa compilação de aforismos paradoxais é tão lacônica quanto críptica. Em contraste, tanto quanto o Tao Te Ching é conciso, o livro de Chuang Tzu – coalhado de lendas, parábolas e sátiras que desafiam as certezas sobre a religião, a linguagem, a lógica e a própria realidade – é prolixo. Estes mestres pregam o caráter cíclico do tempo; a eterna reversão do ser ao não-ser e vice-versa; e a solidariedade entre a natureza e o homem. Uma vida cultivada na compaixão, frugalidade e humildade terá tanta naturalidade que suas ações serão quase não-ações, ou ações não intrusivas, não voluntariosas, sem esforço. Mas apesar do aparente quietismo, o daoísmo se capilarizou em inúmeras sociedades secretas, seitas milenaristas e facções messiânicas. Apesar desse panteísmo volátil, seus fiéis convivem com uma multidão exorbitante de deuses, espíritos e demônios. E apesar dessa moralidade austera, seus ritos se proliferam em uma pletora de feitiços; exorcismos; elixires; talismãs; conjurações; adivinhações; transes; oráculos; fórmulas alquímicas; e técnicas meditativas, clínicas, marciais, ginásticas, dietéticas e sexuais, que reverberam hoje em práticas seculares como exercícios de meditação, o Tai Chi ou o Feng Shui. Tanto quanto o taoísmo enfatiza a natureza e o que é natural e espontâneo no ser humano, a sua tradição irmã, o confucionismo, se ocupa da sociedade humana e das responsabilidades sociais. A história de seus atritos e simbioses é a mais perfeita expressão dessa mistura singular de superstição e ceticismo, de piedade e racionalismo, que é o ideário chinês. Afinal, o que será o taoísmo: uma corrente profunda da cultura chinesa ou uma joia rara? Fruto do povo ou de uma elite minoritária? Será uma força contracultural, revolucionária, ou de consolidação do status quo político, ou será ainda inerentemente apolítica? CONVIDADOS Chiu Yi Chih: professor de filosofia chinesa clássica do Centro Cultural Taipei e tradutor do Dao De Jing. Mônica Simas: livre-docente de Letras da Universidade de São Paulo onde coordena o Laboratório de Interlocução com a Ásia. Bony Schachter: Professor de filosofia na Universidade de Hunan, na China. REFERÊNCIAS * História das Crenças e das Ideias Religiosas, de Mircea Eliade. * Introdução às religiões chinesas, de Mario Poceski. * Escritura da Salvação: uma tradução comentada, de Bony Schachter, na Revista In-traduções. * Mandarim Taoísmo, com textos e cursos sobre taoísmo de Chiu Yi Chih. * &#8220;Daoism&#8221;, entrevista para o programa In Our Time, da radio BBC 4. * The Encyclopedia of World Religions, org. R.S. Ellwood e G.D. Alles. * Britannica Encyclopedia of World Religions, org. W. Doniger. * Religions of the World. A comprehensive Encyclopedia of Beliefs and Practices, org. J.G. Melton e M. Baumann. * Encyclopedia of Religion, org. Lindsay Jones. * The Cambridge Illustrated History of China, de Patricia B. Ebrey. * A Source Book in Chinese Philosophy, ed.
Oct 27, 2021
58 min
A Corte de Luís XIV
Todos os dias a mídia proclama um novo rei – o “Rei do Rock!”, o “Rei do Futebol!” –; um mercador não tem pudores em se propagandear o “Rei da Banha”; toda turma tem o seu “Rei da Cocada Preta”. Mas houve um tempo – quase toda a história humana – em que em cada nação imperava um único rei, e nos tempos modernos – talvez em todos os tempos –, nenhum foi tão paradigmático quanto o Rei Sol. Em Luís XIV, disse Goethe, a natureza fabricou o espécime do tipo monárquico, e, assim o fazendo, se exauriu e quebrou o molde. Ele concentrou a autoridade da Igreja, o poder da aristocracia e o dinheiro da burguesia com mão de ferro, mas aberta. “Nunca na história um governante foi tão generoso para a ciência, as letras e as artes. Luís XIV perseguiu jansenistas e huguenotes, mas foi sob ele que Pascal escreveu, Bossuet pregou e Fénelon ensinou”, disse o historiador Will Durant. “Nunca a França escreveu melhores dramas, melhores cartas, ou melhor prosa. As boas maneiras do rei, seu autocontrole, sua paciência, seu respeito pelas mulheres, ajudaram a difundir uma cortesia encantadora na corte, em Paris e na Europa. Ele abusou de algumas mulheres, mas sob seu domínio as mulheres atingiram um status, na literatura e na vida, que deu à França uma cultura bissexual mais adorável do que qualquer outra no mundo. Tudo somado, e lamentando que tanta beleza tenha sido maculada com tanta crueldade, podemos nos unir à França em aclamar a era de Luís XIV como comparável à Grécia de Péricles, à Roma de Augusto, à Itália renascentista, e à Inglaterra elisabetana entre os picos da vacilante trajetória humana”. Visto à distância, é verdade, o que parecia o zênite da monarquia foi apenas a luz crepuscular de um antigo regime decadente, contraproducente e opressivo. A revolução democrática defenestrou os reis, guilhotinou suas cabeças, tolheu seu direito divino, e a voz do povo se tornou a voz de Deus. Mas se esse novo monarca anônimo e mais absoluto que os antigos por vezes os superou em magnanimidade, tantas outras foi muito mais despótico. Talvez ele se engrandecesse se desse ouvidos à última palavra sobre o Rei Sol. Ao fechar as cortinas do Grand Siècle na oração fúnebre a Louis le Grand, o bispo de Massillon concluiu: “Só Deus é grande”. CONVIDADOS Laura Ferrazza: Doutora em História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Robert Ponge: Pesquisador e orientador da Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Rodrigo de Lemos: Professor do programa de Línguas Estrangeiras da Universidade Federal de Ciências da Saúde Pública de Porto Alegre. REEFERÊNCIAS * A crise da consciência europeia: 1680-1715 e O Pensamento Europeu no Século XVIII, de Paul Hazard. * História da Civilização, VIII, A Era de Luís XIV, de Will e Ariel Durant. * A sociedade de Corte, de Norbert Elias. * Les Origines de la France contemporaine: L’Ancien Régime, de Hyppolyte Taine. * Le Siècle de Louis XIV, de Voltaire. * Histoire de France, de Jules Michelet. * Le siècle de Louis XIV, de Hubert Méthivier para a série Que sais-je? * Histoire de la France de Pierre Miquel. * The Oxford Handbook of the Ancien Régime, ed. William Doyle. * The Ancien Régime; France and the Age of Revolution e Old Regime France, de William Doyle. * The New Cambridge Modern History. V. The Ascendancy of France 1644-88. * “Louis XIV et son siècle” – radiodocumentário da radio France Culture em 4 episódios * “Louis XIV: le Roi-Soleil rayonne sur le monde” – do programa Le Cours de l’Histoire, de Xavier Mauduit. Radio France Culture. * <a href="https://www.youtube.com/watch?
Oct 20, 2021
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