
(conversa a partir do conto "Na vastidão, o céu da noite" de Itamar Vieira Junior - leia aqui - imagem do episódio de Flavio Pessoa)
Em toda história que se conta, há silêncio. Nem todo o vivido pode passar para o dizer. Às vezes, o que se experimenta é por demais insuportável e banido. Outras vezes, será esquecido apenas por não ter cabimento. A vida é assim: se escreve, também, pelo não-dito.
Não-ditos nunca são apenas feitos de vazio. São detalhes enigmáticos: um pequeno gesto de mão perdido no ar, um sorriso quase triste, o som de uma bofetada do outro lado da porta, um olhar de cumplicidade.
Uma análise tem relação especial com esses detalhes, pois, pontos cegos das histórias que se conta, valem muito ao conter tudo o que ainda restou por dizer. Guardam de modo perturbador o que poderia ter sido e não foi, localizando o improvável e o imprevisto.
Freud orientou o analista a buscar esses elementos por sua estranheza, situando-os, em uma metáfora célebre, como o umbigo do relato, de um sonho, por exemplo. Tal como um umbigo, são rasuras, cicatrizes ou dobras, pontos por onde a narrativa penetra no desconhecido. Lacan preferiu designar esses estranhos pontos cegos com apenas uma letra, seu objeto “a”. É a estranha opacidade do silêncio tomada como objeto.
Os objetos “a” serão os protagonistas de uma análise. Por serem presenças indeterminadas, funcionam como portas para outros passados, prenhes de novos futuros. Através deles, surgem memórias que nem se imaginava existir.
Como a matéria prima para a reescrita do futuro é esse passado, ocorre de esses dizeres dos não-ditos se acumularem, fazendo pressão. Nenhum problema. É exatamente esse processo que força uma nova arrumação da casa.
Na falta de arquivo, porém, fica difícil fazer o silêncio falar. É o que vivem os que vem de gerações de silenciados. Quando só restam essas pequenas coisas, elas se acumulam em seu silêncio constituindo toda uma área obscura que ganha os poderes do breu da noite. Como os silêncios não são puros vazios, mas cheios de vida não dita, atraem para si mais e mais experiências de silêncio e silenciamento, agindo quase como os buracos negros dos astrônomos. O buraco negro de uma história tende a atrair para si o que houver em volta e a tudo levar a lugar nenhum. No entanto, ainda assim é possível, em vez de, nele, nos perdemos de nós, tomá-lo como portas que se abrem a outros espaços de vida, outras histórias. Basta ter a chave.
É o que ensina o conto Na vastidão da noite, o céu estrelado de Itamar Vieira Júnior. A partir do trabalho de Flávia Cera em torno desse conto, convidei a autora e Eliane Dias para conversar sobre realidade histórica e fabulação crítica, o objeto “a” como buraco negro, literatura e psicanálise, ou ainda sobre o silenciamento entre denegação e foraclusão, entre outras tantas coisas.
No conto de Itamar, o nome da chave é Bárbara, tataravó escravizada da protagonista Rita. A violência do silenciamento parece sentenciar que nada restaria de sua ancestral, mas pequenos elementos, entre romance familiar e realidade histórica vão compondo uma construção sobre o que teria sido Bárbara.
Ao mesmo tempo, essa montagem é orientada por aquilo que na vida de Rita repercute quase que intuitivamente sua ancestral compondo um amálgama vivo entre passado, presente e futuro. Rita nos lança ao mesmo tempo na investigação dos buracos negros do universo e os de sua história e aprendemos com ela, não apenas que o futuro não é possível sem um tanto de passado, mas que, mesmo na falta de arquivo, pode-se confeccionar a gambiarra pessoal que sirva a nos dar a certeza de que a vida sempre pode ser outra do que terá sido (Marcus André Vieira)
Nov 23, 2021
31 min

Quantas línguas há na nossa língua mãe? Além daquela do pai, da norma culta; e a da mãe, de ternuras ancestrais, há ainda, muitas mais, muito mais no cristal da língua. Nele, cabem até mesmo os brados dos paranoicos no poder. Boas mesmo são as línguas que trazem fragmentos de um passado perdido, de indefiníveis certezas. Somos transportados a uma zona da memória impossível de localizar. São elas que habitam a tendência irresistível para alguns de fazer, de uma flor, fulô e para outros, para quem flor é flor, ainda assim de bater com o pé no chão quando ouvem “pisa na fulô, pisa na fulô...”
Que memória é essa? A mesma que Proust nos leva a sentir, mesmo não tendo ideia do que seja uma Madeleine. Basta mergulhar nossos fragmentos sonoros no caldeirão da língua quando dizemos, meu dengo, meu araçá.
Para Freud, a memória não tem limites. A ideia de um estoque finito, como pensa a neurologia, mostra seu caráter de ilusão quando a mesma ciência não cessa de destacar como as conexões neuronais são incontáveis por se fazerem e refazerem sem cessar. Freud não se interessa pelo arquivo morto. O que conta, o que desperta e faz sonhar são as memórias do esquecido. Valem as que não se encaixam no verbo da cidade, andarilhas errantes. Para tudo que não coube na língua pública e nem na privada, mas apenas ficou como ressonância, ritmo, cor, Lacan inventa um nome, fazendo cantarolar sua langue com o termo lalangue, lalíngua em português, menos vibrante. É com ela que lida o psicanalista ao fazer os fragmentos de história fora da história de cada um falar.
Quanto de alfabestização é preciso para que, em bom português, valorizemos os encontros consonantais em chiados e erres prolongados? Quanto se encolhem nossas vogais quando dizemos “dentro de mim” em vez de “dendimim”? “Muito prazer” em vez de “ôba!”?
Nessa distância entre lalíngua e a língua oficial brotam dialetos. Vivi um deles por anos, o dialeto médico, com seu jargão entre radicais gregos e latinos, tendo um termo para qualquer evento a fim de evitar que o paciente saiba que dele falam como de uma coisa. De “hanseníase” para lepra ou do atual “cuidados paliativos” para fim de linha, o jargão médico sempre me deu a impressão de um modo pretensioso de esconder a morte ao preço de uma mortificação da linguagem.
Esse número do Radar do analista cidadão busca o encontro com outro dialeto, quase o avesso daquele do médico, o pajubá. É o dialeto dos trans e de sua rua, reinjetando lalíngua na língua oficial, sexualizando a linguagem e falando a seu modo da vida e da morte.
A ideia partiu de Maricia Ciscato, mais especificamente de seu encontro com as falas de Amara Moira que é, ela própria, ponto de encontro entre o pajubáa experiência trans da rua, prostituta que é ao reverberar na ponta de sua língua, tanto o pajubá das ruas quanto, em sua tese de doutorado, as onomatopeias de Joyce. Conversando com Maricia e com Veridiana Marucio, vimos como basta que se ouça Amara em pajubá para sejamos transportados a essa periferia da língua onde ecoam os terreiros, talvez de modo próximo e distinto daquilo que Lélia Gonzalez chama de pretuguês.
Além do dialeto médico, tenho vivido há um bom tempo no lacaniano. A trama de palavras pacientemente tecida por Lacan ao longo dos anos para nos levar o mais próximo do calor dos acontecimentos pegou muita friagem no caminho ao vir para nossas terras. Não apenas perdeu sabor, mas ganhou uma ossatura que mimetiza demais a do francês, nos levando a dizer coisas estranhas como “da ordem de...”, ou “objeto pequeno a” com a maior naturalidade. Meus votos são os de que esse Radar abra os ouvidos dos que usam os termos de Lacan como usavam os médicos do meu passado para a força e virulência que tinham em seu tempo, como os termos do Pajubá têm hoje, no nosso. (Marcus André Vieira)
Jun 22, 2021
39 min

Com Danielle Menezes e Geisa de Assis
Como resgatar uma história não apenas perdida, mas sobre a qual incidiu um silenciamento radical? Radical, por visar todo um mundo de gente fadada à exploração e à inexistência. E como minar esse racismo estrutural que segue vigente nos corações e corpos de todos nós? Lélia Gonzalez o faz “numa boa”, como diz. Não é exatamente revolucionária, no sentido de sonhar com a substituição de uma estrutura nefasta por outra melhor. Também não busca a destruição desse mundo, mas muitas vezes produz sua mudança por dentro, que Lacan chamou de subversão. A subversão se faz pelas falas de sujeito, falas de uma singularidade que perturba uma situação viciada semeando a possibilidade de uma mudança. Essas falas não vêm do céu, mas, para Lélia, da lata de lixo, retomando o que propõe Miller para o fazer do analista. Lélia anuncia seu programa: “o lixo vai falar, e numa boa”. O lixo não é alguém, mas, sim, os restos, em alguém, do que não se chegou a dizer. A esse lixo não será preciso conceder lugar de fala, mas ele próprio criará seu lugar.
É fazer valer a potência subversiva do que é silenciado, mas, que, nem por isso, deixa de agir. Pelo contrário. Isso, inclusive, força passagem em nossa língua através das marcas, das cicatrizes e dos destroços que não puderam ser eliminados. Nesse sentido, por exemplo, Lélia resgata tudo o que foi dito, um dia, a respeito da figura da mucama para reler a falsa oposição entre a mulata hipersexualizada e a dócil empregada. Ela conta, ainda, ao modo do chiste, como respondeu ao entregador que toca à campainha e pergunta: “A madame está?” E ela diz: “Não, a madame saiu”. Em vez de conscientizar o entregador de que a madame não existe e nem deve existir, ela o força a lidar com o paradoxo de uma “dona” negra.
Como o silenciado é feito de memória, fragmentos de cenas, palavras, cheiros e sons perdidos, seu impacto é estranho. E, às vezes, o essencial é apenas uma dobra na língua. Para alguns, no exemplo de Lélia, a tendência a falar Framengo, em vez de Flamengo, pela impossibilidade de em algumas línguas banto articular o fonema “fla, ou p “ble” de problema.
É sua tese de base: nosso mundo é feito em grande parte de ossatura negra, assim como índígena, que reverbera. Basta alguém enunciar, Oxalá, por exemplo. As ressonâncias vão longe. Aposto que nem mesmo os donos do agronegócio ou os empresários paulistanos são insensíveis aos ecos do tupi ou do iorubá de nossa conversa de todo dia. É o pretuguês, de Lélia. A língua brasileira, ou melhor, das terras de uma “Améfrica ladina”, expressão resgatada por ela de MDMagno. O pretuguês é o português que se deixa atravessar não apenas pelo que da sua história foi rechaçado, mas estraçalhado. Suas marcas, porém, estão no ar, na argamassa do que nos constitui. Somos filhotes da cultura, feita não apenas do que se vê e sente, mas também do que se pressente na ponta da língua, desses restos linguageiros que Lacan chamou lalíngua.
Que a leitura de Lélia possa ser usada não apenas pelos calados por um silêncio assassino para encontrarem um caminho de fala e transformação. Mas, também, que se aquilate como a interpretação psicanalítica se utiliza da lalíngua do analisante para fazer o novo falar. Aprendemos com ela sobre o modo como o analista pode, com sorte e muita transpiração, fazer valer, em uma vida, o lixo como abertura a um novo horizonte.
Marcus André Vieira
Apr 27, 2021
24 min

Introdução à psicanálise I (para disciplina na PUC-Rio)
por Marcus André Vieira
Jan 28, 2021
10 min

