Show notes
A vida na hora/Wisława Szymborska “Cena sem ensaio.Corpo sem medida.Cabeça sem reflexão.Não sei o papel que desempenho.Só sei que é meu, impermutável.De que trata a peçadevo adivinhar já em cena.Despreparada para a honra de viver,mal posso manter o ritmo que a peça impõe.Improviso embora merepugne a improvisação.Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.Meu jeito de ser cheira a província.Meus instintos são amadorismo.O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.Não dá para retirar as palavras e os reflexos,inacabada a contagem das estrelas,o caráter como o casaco às pressas abotoadoeis os efeitos deploráveis desta urgência.Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antesou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!Mas já se avizinfia a sexta com um roteiro que nãoconheço.Isso é justo — pergunto(com a voz roucaporque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).É ilusório pensar que esta é só uma prova rápidafeita em acomodações provisórias. Não.De pé em meio à cena vejo como é sólida.Me impressiona a precisão de cada acessório.Opalco giratório já opera há muito tempo.Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.E o que quer que eu faça,vai se transformar para sempre naquilo que fiz.”


